Reportagem sob a Forca de Julius Fucik
por Gustavo Carneiro

Um homem só no segredo
sabe um segredo profundo
nunca está só nem tem medo
quem ama os homens e o mundo

 

Carlos Aboim Inglez

VIVER PELA ALEGRIA E POR ELA MORRER

reportagem_sob_a_forca«Vivemos para a alegria, por ela fomos para o combate e por ela morremos: Que nunca se junte a tristeza ao nosso nome.» Assim escrevia, a 19 de Maio de 1943, o jornalista comunista checoslovaco Julius Fucik, na prisão da Gestapo na Praga ocupada pelos nazis, onde seria executado no dia 8 de Setembro do mesmo ano. Os seus escritos na prisão, iniciados poucos dias depois da sua captura, dos primeiros «interrogatórios» e brutais torturas foram, após a sua morte, compilados numa obra a que se deu o nome «Reportagem sob a forca» e que as edições Avante! publicaram em 1975, uma vez terminada a ditadura fascista em Portugal.
Escrita em condições extremamente difíceis - com papel e lápis que entrava secretamente na cela -, a obra saiu igualmente de forma clandestina da prisão com a ajuda do guarda Kolinsky, em folhas numeradas e guardadas pela «boa gente checa», como lhes chamou Gusta Fuciková, companheira de Julius Fucik. Foi precisamente Gustina (como Fucik carinhosamente apelidava a mulher amada) que, regressada a Praga, conseguiu reunir as folhas soltas e terminar a última e mais famosa obra do marido.
Obra essa que correu mundo e, como escreve Gusta Fuciková no prefácio à edição portuguesa, «reconfortava tanto os combatentes do Vietname como os de Cuba e da América Latina». O poeta chileno Pablo Neruda, que dedicou um poema ao comunista checoslovaco, afirmou em 1950 no II Congresso dos Defensores da Paz, que «vivemos na época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples... Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade mas de um construtor da liberdade e da paz».

Sob a forca

julius_fucikPara além da sensibilidade e coragem revolucionária do autor, e das duras condições em que foi escrito, do livro perpassa a confiança no futuro que Julius Fucik manteve até ao último suspiro de vida. Mesmo quando se encontrava às portas da morte, Fucik nunca duvidou da justeza dos seus ideais e da Vitória próxima dos que por eles lutavam. E nunca deixou de amar a vida.
Após uma sessão de duras torturas, escreve: «Estou a agonizar. Demoraste muito a chegar, morte. Apesar de tudo, esperava conhecer-te mais tarde, daqui a muitos anos. Esperava viver ainda a vida de um homem livre: poder trabalhar muito, amar muito, cantar muito e correr mundo.»
Consciente desde a primeira hora do fim que lhe estava destinado - a morte - nunca vacilou e não denunciou nenhum dos seus camaradas. «Sempre contámos com a morte. Já sabíamos: cair nas mãos da Gestapo quer dizer o fim. E aqui fizemos o que fizemos de acordo com essa convicção. Também a minha obra se aproxima do fim. Não posso descrevê-lo. Não o conheço. Já não é uma obra. É a vida. E na vida não há espectadores. A cortina sobe. Homens: amei-vos. Estai vigilantes!», escreveu, um mês antes da sua execução.
«Mesmo mortos, viveremos num cantinho da vossa felicidade porque por essa felicidade demos a nossa vida. E isso dá-nos alegria...» Assim se despediu da Humanidade que amou e pela qual se bateu até ao fim prematuro dos seus dias - tinha apenas 40 anos.

Um amor imenso

O amor de Fucik pela sua companheira, Gusta Fuciková, revela-se na obra. «Esta noite os nazis levaram a minha Gustina para a Polónia, para "trabalhar". Para a escravidão, para a morte pelo tifo. Restam-me algumas semanas, talvez dois ou três meses de vida (...) Esta reportagem já não será completada. Se durante estes dias tiver possibilidade, procurarei continuá-la. Hoje não posso. Tenho a cabeça e o coração cheios de Gustina, essa mulher nobre, companheira tão querida, fervorosa e abnegada na minha vida insegura e nunca tranquila.»
Em tempos difíceis, de clandestinidade, prisão, tortura e separação, nunca os seus corações deixaram de bater em uníssono e nunca a ternura deixou de guiar as suas vidas.
O episódio do último encontro revela os sentimentos que os uniam e a sua grandeza moral. Depois de torturarem violentamente Fucik - e de não lhe arrancarem uma palavra -, os nazis usam Gusta como ameaça. O chefe da secção da Gestapo advertiu: «Tem uma hora para reflectir. Se passado este tempo aquela cabeça teimosa não ceder, são fuzilados esta tarde. Os dois.» A resposta não podia ser mais digna: «Senhor comissário, isso para mim não é uma ameaça. É o meu último desejo. Se o executarem a ele, executem-me a mim também.» Fucik levou orgulhosamente consigo esta imagem e deixou-a fixada na sua obra. «Ei-la. Esta é Gustina: amor e firmeza. Podem tirar-nos a vida, não é verdade, Gustina? Mas nunca a nossa honra e o nosso amor.»
Mais do que um livro histórico, «Reportagem sob a forca» é uma obra que exalta os mais puros sentimentos humanos: o amor, a alegria, a dignidade, a coragem, a confiança no futuro, a luta por um mundo melhor. A sua leitura é, hoje, obrigatória.


Edição Nº1654
http://www.avante.pt - Jornal «Avante!»

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La Lámpara Marina

Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalas de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.
Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entremontes azules,
la polícia
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.

Oh Portugal hermoso,
cesta de fruta y flores,
emerges
en la orilla plateada del océano,
en la espuma de Europa,
con la cítara de oro
que te dejó Camoens,
cantando con dulzura,
esparciendo en las bocas del Atlántico
tu tempestuoso olor de vinerías,
de azahares marinos,
tu luminosa luna entrecortada
por nubes e tormentas.

Pero,
portugués de la calle,
entre nosotros,
nadie nos escucha,
sabes dónde está Álvaro Cunhal?
Reconoces la ausencia
del valiente
Militao?
Muchacha portuguesa,
pasas como bailando
por las calles rosadas de Lisboa,
pero, sabes dónde cayó Bento Gonçalves,
el portugués más puro,
el honor de tu mar y de tu arena?
Sabes
que existe
una isla,
la Isla de la Sal
y Tarrafal en ella
vierte sombra?
Sí, lo sabes, muchacha,
muchacho, sí, lo sabes.
En silencio
la palabra
anda con lentitud pero recorre
no sólo el Portugal, sino la tierra.
Sí sabemos,
en remotos países,
que hace trinta años
una lápida
espesa como tumba o como túnica
de clerical murciélago,
ahoga, Portugal, tu triste trino,
salpica tu dulzura
con gotas de martirio
y mantiene sus cúpulas de sombra.

De tu mano pequeña en otra hora
salieron criaturas
desgranadas
en el asombro de la geografía.
Así volvió Camoens
a dejarte una rama de jazmines
que siguió floreciendo.
La inteligencia ardió como una viña
de transparentes uvas
en tu raza.
Guerra Junqueiro entre las olas
dejó caer su trueno
de libertad bravía
que transportó el océano en su canto,
y otros multiplicaron
tu esplendor de rosales y racimos
como si de tu territorio estrecho
salieron grandes manos
derramando semillas
para toda la tierra.

Sin embargo,
el tiempo te ha enterrado.
El polvo clerical
acumulado en Coimbra
cayó en tu rostro
de naranja oceánica
y cubrió el esplendor de tu cintura.

Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas del Océano.
Portugal, navegante, descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipiélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan sobre
la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.

Cómo es esto?

Cómo puedes negarte
al cielo de la lúz tú, que mostraste
caminos a los ciegos?

Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?

Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telarañas
que cubrentu fragante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descobrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llegó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:

aprenderás de nuevo a ser estrella.

 

Pablo Neruda
(1953)

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tempo-das-giestas MEMÓRIA E RESPONSABILIZAÇÃO COLECTIVA

O Tempo das Giestas, de José Casanova

Texto lido na sessão de lançamento

 

       Começámos a ler José Casanova, a reparar nele com redobrada atenção, através desses brilhantes nacos de prosa interventiva que, para nosso contentamento, vai publicando amiúde no Avante. Nessa prosa demolidora, ácida, por vezes, quando o alvo lhe fica a gosto, jeito e merecimento, exercício modelar de sagacidade discursiva, herdeira do virtuosismo verbal e satírico de Eça e Ramalho Ortigão, José Casanova vai fazendo a mão a uma escrita transgressora, certeira, de corrosivo humor, onde aflora a desmontagem crítica do servilismo ufano que perora, bem pago e petulante, pela maioria dos títulos da nossa imprensa e dos tiranetes que esboroam o espaço respirável deste pobre país. Essa prosa raramente deixa entrever - por que os alvos se situam em outras coordenadas e em diversas funções da escrita - o autor sensível, de pujante registo rememorativo onde, texto a texto, com sóbria e eficaz linguagem descritiva, nos devolve a perenidade dos sinais identitários de um tempo português e das gerações que o protagonizaram.

       Depois dos desvios, um tanto boçais, pelos caminhos de uma sub-literatura, de cordel frouxo, plástica e medíocre, pela qual muito boa gente e respeitáveis editoras, se deixou seduzir, a ficção portuguesa parece, de novo, querer acertar o passo e voltar a reflectir e inscrever o espaço de realidade que lhe cabe efabular. Autores como José Casanova, Urbano Tavares Rodrigues, António Torrado, Maria Eugénia Cunhal, Teolinda Gerção, Modesto Navarro, Possidónio Cachapa, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e outros, retomam, nos seus textos mais recentes, a tarefa de repensar, através do fio frágil da memória, o país que somos e os caminhos que nele, impressivamente, traçamos. 

       A prosa ficcional de José Casanova é atravessada, desde o seu magnífico romance de estreia O Caminho das Aves, por um caudal de paixões diversas e transmissíveis, que vai dos livros aos filmes, à música - popular e erudita - às ruas, aos cafés, à paisagem humana de Lisboa. Esse somatório de sinais - suficientes para tornar reconhecível um autor - desagua, em ostinato rigore, no largo delta da intervenção cívica, num discurso predominantemente político. Trata-se aqui de um exercício intelectual de rigor e excelência, tendente a devolver ao político o estágio superior da dignidade e da cidadania.

José Casanova, sabe que o verbo, os escusos caminhos das palavras, da sua desassombrada exposição, se usadas com justeza e pertinácia, contêm em-si os gérmenes da mudança, e que o futuro se inscreve na fala urgente de denunciar trapaças, de vergar o medo, de dobrar avessos destinos. Para tanto, é necessário que o texto penetre o universo rasante onde a memória estua e que os modos de a contar, de a expor, sirvam para que com ela nos responsabilizemos como espaço nosso, património de assunção colectiva.

       Há na escrita de José Casanova uma apropriação do real, no amplo sentido do realismo de causas que, com o desassombro das revelações, nos remete para o lado mais opaco da opressão salazarista e que se não detém no traço grosso, no estereótipo do anedotizado, antes penetrando a raiz substantiva do regime, expondo, com clareza dialéctica, os mecanismos de classe que o sustentavam: a mórbida sordidez dos serventuários e dos discursos de suporte; os subterrâneos lodosos dos cárceres; a sociedade ignara; a violência; os ódios; os cercos opressivos que perpetuavam a usura e tentavam tornar lícita a cupidez e a mediocridade - modos de justificar a necessidade de um chefe, de "um cão de cego" pronto a guiar, à força de porrete, rebanho obrigado e submisso. Paralelamente, a fala do autor percorre um outro corpo, onde demoradamente se detém, onde o sabemos destro e jubiloso, partilhando com os leitores os cadinhos luminosos da nossa festa: o clamor das ruas em Abril e Maio, a ardência dos desejos, as paixões, a alegria jovem e libertária; construídos através dos referentes identitários que passam pela intertextualidade, pela memória histórica, política e cultural que determinam esta escrita e substantivamente a edificam. José Casanova constrói, ultrapassando convencionalismos formais, um edifício ficcional de exemplar estratificação que parte do real, da sua liminar essência, para o território da dignidade do humano, onde a vida se inscreve, provando desse modo a capacidade discursiva e efabulatória do realismo para narrar a essência. A palavra, o fluir naturalista do diálogo (de uma coloquialidade despojada, a lembrar John Steinbeck) é, neste romance, mais do que um exercício de estilo, torna-se parte substantiva da acção e da sua eficácia.

       Construído em três registos temporalmente diversos, três universos ficcionais que se cruzam e complementam, O Tempo das Giestas percorre a nossa história, desde os anos 30 até aos primeiros anos pós-Abril de 1974. Como já acontecia em Aquela Noite de Natal, o autor utiliza uma escrita fragmentada, no sentido bartheano, para em simultâneo nos contar a estória de Teresa que num dia de Abril, decide ir à Soeiro Pereira Gomes saber notícias de um rapaz, pelo qual se apaixonara em finais dos anos trinta (no período conturbado da "Revolta dos Marinheiros")  cujo, após um breve namoro perpassado de temores, desaparece sem deixar rasto. Quarenta anos volvidos, já em plena liberdade, com as cantigas de Fausto, do Sérgio Godinho, do Zeca a ecoarem pelas ruas da cidade, Teresa está na sede do PCP para saber de Simão, o amante perdido. Ajudada por Marcos, um jovem militante, Teresa parte em busca desse amor de perdição que ficara suspenso no peito e na memória durante décadas, sem que o tempo lhe destruísse a essência e o fulgor. Com Teresa partilhamos esses dias amargos, a brumosa paisagem dos anos trinta portugueses, os percursos dos amantes pela lugubridade das ruas de uma Lisboa vigiada e agreste (a chuva permanente contribui para criar essa atmosfera claustrofóbica, opressiva e sombria), a paixão na urgência de viver, os medos, as armadilhas de um país de sombras, dominado pelo ódio, pela tacanhez imposta como norma pelo ditador de Santa Comba e pelo servilismo corrupto dos sevandijas.

       Com Teresa, Marcos e Inês percorremos a outra Lisboa, luminosa e solar, cidade da participação cívica, do despertar para a cidadania e para o sonho; uma cidade a erguer-se ao som das palavras necessárias e justas, que prepara um Festival de Música para tornar o seu rio, o Tejo, amado e respeitado por todos. Sem escamotear os perigos que espreitam o despertar de um tempo novo, José Casanova vai pontuando a narrativa com alguns sinais perturbadores da modernidade e do futuro: as manobras dos partidos de direita; as alienações que emergem corrosivas; a dependência das drogas.

       O terceiro tempo deste romance é constituído pelas cartas de prisão que Simão, no degredo do Campo de Morte do Tarrafal, vai escrevendo a Teresa, como se de um diário se tratasse. Penso, pelo rigor da escrita, pelo que descreve e pela forma como o horror nos é contado, tratar-se das páginas mais tocantes e dramaticamente impressivas da nossa actual literatura. Partindo de testemunhos dos que no Tarrafal sofreram o terror fascista (aos quais, de forma sentida, este livro presta homenagem), José Casanova reconstitui, através da narrativa epistolográfica, sem excessos de dramaticidade mais do que os necessários aos desígnios da acção, sem concessões ou simulacros de revisionismo histórico, a mais dolorosa e assertiva denúncia do terror fascista, a um tempo historicamente rigorosa e imbuída de uma puríssima sensibilidade que nos dói até ao sufoco. O autor, não receia impregnar estas páginas com a sua impressão digital, tornando nítidos os contornos que o movem e o trazem à responsabilidade de escrever: José Casanova não omite, não oculta, não suaviza - estabelece, de forma corajosa e frontal, a relação lúcida e introspectiva do homem com o mundo, numa prospecção dialéctica em perfeita sintonia com o período histórico que descreve.

Através das cartas do degredo, vamos conhecendo o percurso heróico e sofrido de Simão, a paixão por Teresa, ao mesmo tempo que nos é revelado o seu obscuro passado, só em parte descoberto por Marcos, Teresa, Inês e outros, através das suas buscas, numa trajectória de policial orgânico, como se este funcionasse, alheio aos códigos de género, como necessidade cívica de desocultação das brumas, fazendo destes personagens agentes recondutores da verdade e do histórico. Nas cartas de Simão, a linguagem, como diz William Burroughs, "age", plenamente, "em modo de reconstituição", devolvendo-nos intacto o amargo absurdo desses dias.

José Casanova, com este O Tempo das Giestas, quer-nos parceiros activos da narrativa, capazes de assunção do horror que perpassa estas páginas, quer, como todos os escritores que são agitadores de consciências, perturbar o leitor até ao desatar das lágrimas, levando-o à indignação. Como Brecht, o autor sabe ser necessário mostrar a substância do mal, para que, colectivamente, nos tornemos responsáveis, não apenas pela inventariação do passado mas, sobretudo, pela construção do devir. Por isso, neste romance, a memória se inscreve como inelidível património do humano.

Também Lisboa, a Lisboa do companheirismo, da resistência, das tertúlias, das ruas sombrias e esquinas vigiadas, permanece como um dos elementos definidores que personalizam e autonomizam a escrita de José Casanova. Neste terceiro romance, é já nítida essa voz, essa sintaxe, esse singular ritmo, que aproxima a sua escrita da noção de "autor" como a definiu Herberto Hélder - com Lisboa presente nesse circular chão de afectos.

Se existe, neste romance, uma profunda amargura, sobretudo pelo não-vivido, pela vida que Teresa e Simão deixaram a meio, existe nele, igualmente, uma alegria, um acreditar nos tempos que virão, que redime esse amor tornado impossível e que o foi, não pelos imponderáveis do destino (como em "Amor de Perdição", de Camilo), mas pelas circunstâncias políticas e históricas que tragicamente o impediram de consumar-se.

Reabilitar a memória da resistência aos quase cinquenta anos de fascismo, não é tarefa pequena nem tema em desuso, ao qual - como advoga a sacrossanta e instalada crítica deste país a fazer-se de novo beato e cínico - a literatura se não deva ater. Será a partir desta bagagem que se construirá a singularidade do nosso discurso ficcional. O resto, são delírios pequeno-burgueses, estertores serôdios de românticos apegos, dos que tentam, em piruetas de acrobacia coxa, iludir o pagode.

O Tempo das Giestas termina sem desesperos, nem crispações; antes, há nele uma ética do optimismo, de quem se reconcilia com a vida e está de pé, como um poeta, lúcido e vigilante; com uma levedada crença no futuro: "Marcos enlaça Inês pela cintura, puxa-a para si, embala-a, com a mão aberta acaricia-lhe o ventre, segreda-lhe: O nosso Simão."

Como Thomas More, José Casanova sabe que o Povo contém em si os segredos das alquimias capazes de transformar a utopia em realidade.

DOMINGOS LOBO

 

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 thumb_ary-dos-santos

Excerto de
"As portas que Abril abriu"
 de José Carlos Ary dos Santos

 

 

De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

um menino que sorriu

uma porta que se abrisse

um fruto que se expandiu

um pão que se repartisse

um capitão que seguiu

o que a história lhe predisse

e entre vinhas     sobredos

vales   socalcos   searas

serras   atalhos   veredas

lezírias e praias claras

um povo que levantava

sobre um rio de pobreza

a bandeira em que ondulava

a sua própria grandeza!

 

De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

E só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.

 

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