Antifascistas

Manuel Guilherme Almeida aprx 26 anosManuel Guilherme de Almeida nasceu a 10 de Setembro de 1898 na pequena aldeia de Janeiro de Cima, no concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco. O pai era assalariado rural, trabalhando ao dia (jorna); a mãe cuidava da casa de xisto e da família. Manuel Guilherme de Almeida foi o primogénito entre seis irmãos. Veio para Lisboa em 1908, onde concluiu a 3.ª e a 4.ª classes.


Casou em 1923 com Alice Marques Louro. Teve três filhos: Fernando (1924-2013); Arnaldo (1926-2008); e Guilherme (n. 1950). A sua saúde começou a deteriorar-se em 1989, vindo a falecer a 11 de Novembro de 1992, com 94 anos feitos.

 

 

Vida política e sindical

 


Logo em 1913 inicia-se no associativismo profissional fazendo-se sócio da Associação Fraternal da Classe dos Operários Alfaiates de Lisboa, onde viria a ser membro activo e ensinaria corte.

 

Manuel Guilherme Almeida 1971É detido pela primeira vez em 14 de Abril de 1920, "por ordem superior": a Polícia Cívica de Lisboa prende-o "por ser conhecido agitador das classes operárias". A 13 de Setembro de 1920, é novamente preso "por andar a colar prospectos incitando o povo à greve"; libertam-no uma semana depois. Volta a ser detido a 23 de Novembro de 1920 "por fazer parte do grupo de grevistas da Classe dos Alfaiates" e "agitador". É libertado no dia seguinte.


Manuel Guilherme de Almeida, republicano convicto até à medula, milita desde 1919 nas Juventudes Comunistas, juntamente com António Monteiro (também membro da Associação de Classe dos Alfaiates de Lisboa). Tendo já aderido aos ideais do Comunismo, encontra-se, em 1921, entre os fundadores do PCP (Partido Comunista Português). Em 10 de Março de 1922 é novamente detido "por ordem superior" e preso juntamente com outros trabalhadores, no Forte de S. Julião da Barra, por envolvimento em greves.

 

Suspeito de envolvimento na malograda tentativa revolucionária de 26 de Agosto de 1931, que visava derrubar a Ditadura, Manuel Guilherme de Almeida é preso na própria madrugada de 26 de Agosto de 1931, em sua casa, pela Polícia Internacional Portuguesa [polícia política antecessora da PVDE e da PIDE] e levado com outros para os calabouços do Governo Civil de Lisboa. É então deportado para Timor a 2 de Setembro de 1931, a bordo do vapor Pedro Gomes, juntamente com muitos outros, de onde só regressaria em 9 de Junho de 1933.
Em Setembro de 1933, a Associação Fraternal dos Operários Alfaiates de Lisboa é encerrada e extinta pelo facto de os seus sócios terem decidido, em assembleia geral, não aderir ao nacional-sindicalismo criado pelo Estado Novo de Salazar.


Em 1934 é secretário do SVI (Socorro Vermelho Internacional) e, juntamente com a mulher, Alice Louro de Almeida, tem um papel fundamental no apoio a presos políticos e a perseguidos pela polícia política. O SVI Prestava apoio material e jurídico aos presos políticos e às suas famílias, divulgava no país e no estrangeiro notícias sobre a situação dos presos e de denúncia da repressão. Precisamente por ser Secretário do SVI, é preso em Março de 1935, julgado no Tribunal Militar Especial e mais tarde deportado, em Outubro de 1936, para o Forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira (Açores).

É levado no vapor Loanda, o mesmo em que seguiu a primeira leva de presos políticos para o Tarrafal. Esta deportação manter-se-á até ao final de 1938, chegando a Lisboa em Janeiro de 1939.


Manuel Guilherme Almeida 1985Manuel Guilherme de Almeida e Alice Louro Almeida assegurarão este apoio por mais de duas décadas. Em sua casa (então situada na Academia Maguidal, na Rua da Palma) abrigaram-se Maria Machado, António Ramos Rosa, Manuel Lourenço Neto, Diamantina Alves Vicente, Vitoriano Rosa e José Tengarrinha, entre muitos outros.

 

Em 1943 volta a ser detido, por seis dias, "para averiguações".

 

Em 1945 adere às listas do MUD. Voltaria a ser preso em 1956, na sequência de ter dado guarida à antifascista Maria Machado ((1890-1958), que tinha partido uma perna . A Academia Maguidal é cercada e revista, são apreendidos documentos, jornais e panfletos considerados "comprometedores". Manuel Guilherme de Almeida é preso, assim como quase toda a sua família (à excepção do autor destas linhas que tinha cinco anos e meio e ficou ao cuidado de uma tia paterna e de um primo). São todos acusados de "actividades contra a Segurança do Estado", nos termos do "crime do §1.º do Art.º 173 do Código Penal", segundo o mandado de captura de 13 de Abril, e enviados para o Depósito de Presos de Caxias, Reduto Norte. Maria Machado, conhecida pelo pseudónimo revolucionário de Rubina, de cuja actividade política a PIDE estava bem documentada, também é presa. Manuel Guilherme de Almeida e a sua mulher só voltarão à liberdade quase seis meses depois, a 27 de Agosto de 1956.


Em 8 de Abril de 1958, Manuel Guilherme de Almeida subscreve o pedido de admissão da candidatura do Dr. Arlindo Vicente à Presidência da República. Posteriormente, Vicente retirar-se-á da candidatura, em benefício da crescente popularidade do General Humberto Delgado. Mas o governo apressa-se a proibir a oposição de ter acesso à contagem dos votos. As eleições serão falseadas e será eleito o Almirante Américo Thomaz, candidato do regime, escolhido pela União Nacional.


Em 1963 é novamente preso pela PIDE, por ter sido utilizado uma sua máquina copiadora na produção de 11000 cópias de prospectos para o 1.º de Maio e para uma grave na Carris, em Santo Amaro. É julgado, sendo a defesa feita por Mário Soares, e acaba condenado a 18 meses de prisão, repartidos entre Caxias e o Forte de Peniche.


Manuel Guilherme Almeida 1948Esteve preso nove vezes, com duas deportações, totalizando 93 meses de prisão política. Ainda em 1973, já com Marcello Caetano como primeiro-ministro e a PIDE substituída pela DGS (Direcção-Geral de Segurança), o Boletim de Informação da DGS n.º 792600 informa, em 3 de Abril, que Manuel Guilherme de Almeida "Não oferece garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado". Nesta conclusão, o Estado Novo reconhece que não o conseguiu dobrar.






Vida Profissional


Emprega-se como aprendiz de alfaiate em 1911, com 13 anos, aprendendo e aperfeiçoando sucessivamente o seu ofício. Passando pelas alfaiatarias mais conceituadas, vai ganhando conhecimento e prestígio profissional. Chega a oficial (1918), a contramestre (1923) e seguidamente a mestre. Em 1924, a Direcção da Associação Fraternal dos Operários Alfaiates de Lisboa, de que era sócio desde 1913, convida-o para leccionar as aulas de corte que aquela instituição mantinha. Manuel Guilherme de Almeida (com 26 anos) assegurará as aulas de corte até 1931, já como mestre. Em 1926 começa a desenvolver um novo método de corte, de sua autoria, inovador e eficaz. Em 1929 já é mestre técnico nas Oficinas Gerais de Fardamento do Exército. Funda a Academia de Corte, em Março de 1934, onde ensina o seu método Maguidal (acrónimo de MAnuel GUIlherme d'ALmeida. Entretanto, funda a revista Vestir, de técnica e moda para alfaiates, e seguidamente um álbum de figurinos (Moda Actual). Publica o seu livro Método de Corte Sistema Maguidal, que conheceria duas edições. Ao longo de mais de meio século, a Academia de Corte Maguidal, na Rua da Palma, n.º 219- 2.º Esq.º, em Lisboa, será uma referência e formará mais de 3500 alunos-alfaiates. Em 1944 Manuel Guilherme de Almeida está entre os fundadores da Casa de Repouso dos Alfaiates de Portugal, em Albarraque, organismo de apoio aos idosos da sua classe profissional, quando já não podem exercer.


Nas décadas de 1940 e 1950 realiza muitas conferências e palestras da sua especialidade. Na década de 1970 participa em numerosos congressos de alfaiataria.

 

Na década de 80, foi distinguido com diversas medalhas pelos seus pares, nacionais e estrangeiros. Foi galardoado com a medalha de prata por altos serviços em Roma, no ano de 1983. Finalmente, em Julho de 1983, foi agraciado com o grau de comendador da Ordem de Mérito Industrial, pelos serviços prestados à causa da alfaiataria nacional. O colar da Ordem foi-lhe colocado por Mário Soares (então primeiro-ministro), sendo ao tempo Ramalho Eanes presidente da República.

 

Trabalhou até aos 90 anos. Foi criado em sua honra o "Dia do Alfaiate" no último domingo de Maio.

 

Guilherme de Almeida (terceiro filho do biografado).

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jose barataJosé Júnior Barata

José Júnior Barata nasceu em Lisboa a 26 de Agosto de 1916 e foi preso a 17 de Outubro de 1936, tendo sido deportado 12 dias depois para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, com apenas 20 anos.

Mas a vida deste jovem que esteve no grupo inaugural - 36 dos quais marinheiros - do "Campo da Morte Lenta" tinha já sido muito dura. Começou a trabalhar como serralheiro da Construção Civil aos 13 anos.
Assentou praça (militar sem patente) na Armada com 16, foi grumete/marinheiro no Navio "Bartolomeu Dias".

Em 8 de Setembro de 1936, participou na Revolta dos Marinheiros o que o levou à prisão.
Preso e condenado pelo Tribunal Militar Especial só sairá do Tarrafal em 10 de Setembro de 1947 por razões de saúde, uma cirurgia a que foi submetido.
Mesmo assim, foi ainda preso por mais cinco anos na Penitenciária de Lisboa, Limoeiro e Forte de Peniche.

José Barata era sócio fundador da URAP-União de Resistentes Antifascistas Portugueses.

Foi condecorado com a Ordem de Comendador da Liberdade pelo Presidente da República, em 1999, por proposta de um grupo de camaradas, oficiais sargentos e praças. Em 2009, a Câmara Municipal de Almada, por sugestão dessa mesma comissão, ergueu um monumento, no Feijó, a que foi dado o nome de Monumento ao Marinheiro Insubmisso destinado a homenagear a coragem dos jovens que participaram da Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936.

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lista presos penicheO Município de Peniche e a URAP apresentam, para consulta pública, a lista provisória dos presos que estiveram na Fortaleza de Peniche durante a ditadura fascista, época em que este monumento albergou uma prisão política.


Esta listagem, igualmente divulgada na Exposição "Forte de Peniche - Lugar de Repressão, Resistência e Luta", patente no Salão Nobre da Fortaleza de Peniche, conta atualmente com 2491 nomes e dela resultará a edificação de um memorial a inaugurar neste imóvel em abril de 2015. Com este projeto pretende-se homenagear publicamente os cidadãos que estiveram presos nesta prisão política, enquanto testemunho da luta pela Liberdade e pela Democracia.

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Intervenção de Margarida Tengarrinha

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez - 8 de Março de 2013

 

Em 8 de Março de 1952, há exactamente sessenta e um anos, numa sessão comemorativa deste dia promovida pela Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Maria Isabel Aboim Inglez desenvolveu brilhantemente as suas ideias sobre a guerra e a paz. Ao seu lado, e um pouco intimidada, fiz a minha primeira intervenção pública e devo confessar que a improvisação me correu muito mal. Com dificuldade em terminá-Ia, optei por apelar à subscrição dos dois abaixo-assinados que no MUD Juvenil andávamos a recolher: o Apelo de Estocolmo, contra o armamento atómico e o Apelo para um Pacto de Paz entre as Cinco Grandes Potências.

Como me viu triste pelo meu fraco desempenho, no fim da sessão a Dra. Maria Isabel aconselhou-me :"É sempre melhor trazer a intervenção escrita, mas mais importante do que um bom discurso é ter a coragem de apelar à luta. como o fizeste!"

 

Ora sobre a Dra. Maria Isabel Aboim Inglez há uma característica que regista a unanimidade dos seus companheiros de luta e de todos aqueles que a admiravam e admiram: é a sua extraordinária coragem de combatente antifascista. A ferocidade implacável com que a perseguiu o seu inimigo, o ditador fascista Salazar, é outra forma de confirmação que via nela uma mulher que lhe fazia frente com uma coragem sem vacilações e uma firmeza de carácter baseada em convicções fundamentadas em princípios teóricos que adoptara e a que era fiel. Essa perseguição constante e sem tréguas para a fazer vergar e desistir das suas convicções não a envolveu só a ela, mas aos próprios filhos.

Contudo, nem a família nem os amigos mais chegados lhe ouviram nunca uma palavra de desalento, um queixume ou um momento de desânimo. Por isso o poeta José Gomes Ferreira lhe chamou "A Indomável" e muitos a classificaram como "A Mulher sem Medo'', naquela época em que em Portugal o medo era a arma que a ditadura fascista lançava como uma rede paralisante sobre o país, tirando não só a liberdade, mas também o pão aos adversários. Esta última ameaça não era menos eficaz do que a repressão violenta, as prisões, torturas e assassínios, pois o medo de perder o pão atemorizava e incapacitava para a acção uma parte importante dos portugueses revoltados contra o regime. (Note-se que esta forma de tentar dominar as consciências não é exclusiva de regimes fascistas, mas é utilizada por muitas outras entidades com os mesmos propósitos de intimidação.)

Salazar usou contra Maria Isabel Aboim Inglez essas duas formas de repressão: não só a prisão, mas muito particularmente a retirada, por todas as formas, dos meios de ganhar a vida profissionalmente, quando já era viúva e mãe de cinco filhos. Foi presa pela primeira vez pela PIDE em 13 de Dezembro de 1946, sendo libertada no dia seguinte, juntamente com outros membros da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), mediante uma caução obtida pela oposição através de uma recolha pública. Dois anos depois, em Janeiro 1948, voltou a ser presa por causa da distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, sendo libertada dois meses depois. A terceira prisão, efectuada em pleno Tribunal Plenário onde, como muitas outras vezes, foi testemunha de defesa de presos políticos, deveu-se à firmeza com que enfrentou o juiz presidente, que ordenou a sua prisão por três dias alegando "falta de respeito ao tribunal" e enviando-a para as Mónicas, prisão comum de onde saiu dizendo que "até tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas, tendo feito ali um estudo sociológico", como afirmou a uma jornalista a sua filha Isabel.

No entanto, não é nestas prisões que reside a mais terrível e feroz perseguição de que a Dra. Maria Isabel foi vítima, mas sim no cerceamento e proibição final da sua condição de pedagoga, para a qual tinha um talento excepcional, reconhecido ao mais alto nível nos meios universitários e pelos alunos para os quais foi uma professora inesquecível. Ao recordarmos o percurso de vida desta mulher excepcional, destaco alguns traços marcantes; o seu casamento aos vinte anos com Carlos Aboim Inglez, engenheiro químico e de minas, que no dizer de Henrique de Barros "...foi um combatente sem tréguas contra a ditadura, a tudo disposto para a derrubar, mesmo a pegar em armas, como posso testemunhar pessoalmente" (H.de B.num artigo de opinião ao Diário de Lisboa).

Depois da morte prematura do marido Maria Isabel, que era uma pessoa muito contida e de grande sobriedade na expressão dos sentimentos, diria num desabafo nada habitual nela, que estava profundamente apaixonada por ele. Foi de certo um casamento de grande entendimento e apoio mútuo, entre duas pessoas com uma inteligência acima do vulgar, o que se reflectiu no estímulo do marido para que retomasse os estudos. Ela própria, depois do nascimento do quinto filho, sentiu (cito): "o prazer de aprender, de me cultivar, aliado ao desejo de preparar bem os meus filhos e de ser útil.", como afirmou Maria Luísa Silva Bastos, com quem trabalhou na AFPP. ("Capital" 9/3/83) Assim, matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa. Terminado o curso, em 1936, Maria Isabel foi logo convidada pelo professor Matos Romão para assistente de Psicologia Experimental, que não aceitou por razões familiares, pois os filhos eram ainda muito pequenos. Em 1938 apresentou a tese de licenciatura sobre a influência dos descobrimentos na sociedade portuguesa, que defendeu brilhantemente. Munida do diploma, fundou com o marido o Colégio Fernão de Magalhães na Rua dos Lusíadas, em Alcântara que, pela qualidade do ensino ministrado, adquiriu um enorme prestígio.

Foi esse prestígio, a grande frequência e os princípios pedagógicos ali desenvolvidos, nada frequentes nessa época, que desencadearam as primeiras perseguições do regime. Talvez porque o ensino do Colégio fosse laico, mesmo no prédio ao lado foi fundado um colégio religioso, o Ave Maria. Este foi o primeiro confronto.

O Dr. Matos Romão, que tinha enorme consideração pela Dra. Maria Isabel, voltou a convidá-la em 1941 como assistente para a cadeira de Psicologia Experimental, o que ela aceitou. No ano seguinte, com 39 anos, perdeu o marido, o que para ela foi um enorme golpe. Mas continuou; e poucos meses depois o seu nome foi aprovado pelo Conselho da Faculdade de Letras como assistente de Psicologia e também para ensinar Filosofia Antiga e História da Filosofia Medieval. Mas em Dezembro de 1942 foi afastada por veto do ministro da Educação, Mário Figueiredo.

Manteve-se ainda como assistente de Psicologia Experimental por insistência do Dr. Matos Romão que a defendeu junto do ministro. Mas as imposições que limitavam a sua actividade docente eram tão contrárias aos seus princípios e à dignidade que a caracterizava, que acabou por abandonar o ensino universitário em 1943. Esta foi uma segunda fase das perseguições de que foi vítima.

Já então tinha iniciado alguma actividade política ligada à oposição antifascista onde se encontravam amigos de longa data do casal. Seu filho Carlos Aboim Inglez contou-me que em casa dos pais conheceu, corno visitantes assíduos, o professor Bento de Jesus Caraça e Ramos da Costa, que eram membros do Partido Comunista (Ramos da Costa passou mais tarde para o Partido Socialista) e ainda o professor Dias Amado e Manuel Mendes, entre outros intelectuais com os quais conviveu quando era muito jovem. A seguir ao fim da guerra aderiu ao então criado Movimento de Unidade Democrática (MUD) e em 1946 foi a primeira mulher a fazer parte da sua comissão central. A tomada dessa clara posição acarretou-lhe novas perseguições. Porque era reconhecidamente pioneira no ensino da Sociologia em Portugal, o Dr. Gentil Martins, director do IPO, convidou-a para leccionar um curso de Sociologia Geral na Escola Técnica de Enfermagem do Instituto Português de Oncologia. Só conseguiu dirigir esse curso nos anos de 1947 e 1948, pois foi proibida pelo governo de continuar a dar essas aulas em 1949. Mais uma perseguição, esta sem dúvida ligada ao facto de nesse ano fazer parte da comissão central da candidatura do general Norton de Matos. De resto, já nessa altura tinha um longo cadastro na PIDE. E a sua intensa actividade na candidatura do general Norton de Matos, com conferências, documentos de que foi

autora e abaixo-assinados, levou ao encerramento e cassação do alvará do Colégio Fernão de Magalhães e ainda, por decisão do Conselho de Ministros, foram-lhe retirados todos os diplomas que lhe permitiam leccionar.

A política fascista de tirar o pão aos adversários roubava a esta mulher, viúva e com cinco filhos, os meios de ganhar a vida profissionalmente. Verdadeiramente indomável, ela não vergou e montou um atelier de costura, ao mesmo tempo que começou a dar explicações e a fazer traduções. Mas as perseguições não se limitaram a ela própria e posteriormente alargaram-se também às filhas, pois foi retirado à filha Maria Luísa, pintora, o diploma que lhe permitia dar aulas de desenho na Escola Marquês de Pombal e a filha Margarida, engenheira agrónoma, que ficara em primeiro lugar num concurso público, foi impedida de manter-se na função pública. Em 1953, foi convidada a reger uma cátedra numa universidade brasileira dado o seu grande prestígio e também porque no Brasil estavam já vários amigos e conhecidos, que faziam parte dos muitos professores universitários demitidos por Salazar, numa razia que foi uma autêntica perda nacional. Entre eles contavam-se os professores catedráticos Zaluar Nunes, Pereira Gomes, Rodrigues Lapa, Agostinho da Silva e Jaime Cortesão, todos no Brasil. Mas a Maria Isabel foi recusado o passaporte, quando ela já tinha feito o leilão do recheio da casa e de grande parte dos livros e se preparava para

partir. Estas perseguições não a demoveram, talvez lhe tivessem dado mais forca para a luta, pois a sua actividade política até parece ter aumentado a partir daí, para além do grande e constante apoio que deu sempre ao seu filho Carlos, militante destacado do Partido Comunista Português, no decurso das numerosas prisões e dos anos que este passou nos cárceres fascistas.

As posições de Maria Isabel Aboim Inglez em relação ao Partido Comunista, a única força política organizada da Oposição, foram sempre muito claras: nunca foi membro do Partido Comunista, mas acompanhou sempre as posições do Partido nos vários movimentos da Oposição antifascista, quer no MUD, em que fez parte da direcção central, quer depois apoiando o MND, em que por divergências, já não participaram anteriores membros da direcção do MUD. Teve também um importante papel na Associação Portuguesa Feminina para a Paz e na luta pela Paz.

Com uma grande independência de pensamento e forte personalidade, dava sempre a sua opinião com frontalidade quando discordava, discutia muitas vezes com uma forte argumentação, como dizia dela Joaquim Pires Jorge, dirigente do Partido Comunista que com ela contactava.

Destacou-se sempre como uma personalidade de primeiro plano na defesa da unidade das forças democráticas e pela sua lealdade para com o Partido Comunista e os compromissos assumidos, quer nas várias campanhas democráticas, quer em todos os momentos eleitorais da época. Acentuo que, por exemplo em 1957 foi membro da Comissão Central da candidatura de Adindo Vicente, que era o candidato apoiado pelo PCP, e só depois da fusão das duas candidaturas é que apoiou a de Humberto Delgado, o que diz muito sobre as suas opções.

Também serviu muitas vezes de testemunha nos julgamentos políticos. A sua força, coragem e convicções são claramente reveladas na afirmação que fez, em pleno Tribunal Plenário fascista: "Todos os indivíduos que não prestam declarações na polícia são dignos de admiração porque são amantes da liberdade". E terminou dizendo; "é de louvar o Partido Comunista Português por assim proceder".

Afirmações como esta, mas particularmente algumas das suas conferências, como a que proferiu durante a campanha eleitoral de Norton de Matos com o tema "Conceitos de igualdade, liberdade e democracia", publicada pelos serviços da candidatura, o artigo intitulado "A Ética e a Política" publicado pela "República" quando do acto eleitoral de Novembro de 1961 para o qual só não foi candidata pela CDE porque verificou ter sido riscada dos cadernos eleitorais e que é um completo desenvolvimento programático antifascista, a própria tese de licenciatura, entrevistas e muitos outros documentos da sua autoria, mereciam ser estudados para melhor conhecermos a orientação e a profundidade de pensamento desta mulher.

Num debate em que criticava artigos da "Seara Nova" marcou a sua firme oposição crítica à teoria da cultura pela cultura, afirmando: "Duma elite de intelectuais nunca poderá esperar-se a realização das transformações necessárias para uma verdadeira democracia. Ela tem de ser a obra de todo um povo".

Há também por exemplo, uma conferência importante, proferida em 1950 em homenagem a Bento Caraça, de que citarei alguns excertos:

"Os destinos da humanidade preocuparam-no mais do que o seu próprio destino, os destinos do mundo tanto como os da sua pátria. Quanto o seu espírito estaria atormentado pela evolução destes dois últimos anos, em que abertamente se tem caminhado para uma nova tentativa de fascização do mundo capaz de conduzir pela terceira vez numa só geração a uma criminosa terceira guerra imperialista. Através de uma chamada guerra fria - termo que deixará tristemente célebre o povo que a inventou - friamente se preparam os meios científicos da morte de populações inteiras, de verdadeiras destruições em massa."

Estas são afirmações que mantêm hoje plena actualidade. No fim dessa mesma conferência, contrariando as imposições políticas do governador civil de Lisboa ao permitir a sessão, leu uma moção recebida na mesa que exigia a imediata libertação do professor Ruy Luís Gomes e dos democratas presos com ele. E afirmou que, como presidente dessa assembleia, o fizera porque queria manter a sua honra e dignidade. No dia seguinte recebeu de Maria Lamas uma carta emocionada em que esta afirmava : "...Considero histórica a sessão de ontem. A sua extraordinária coragem moral foi a melhor e maior homenagem que era possível prestar à memória do Professor Bento Caraça. (...) Não me surpreendeu a sua decisão e nobre altivez, pois de há muito admiro a sua personalidade, a sua inteligência e firmeza. Mas o que se passou ontem, na modesta sala da Sociedade Instrução e Beneficência José Estevão, foi qualquer coisa excepcional e inesquecível."

Também para nós, hoje, esta é uma grande lição, pois na luta que travamos, não só contra o inimigo principal, que é o capitalismo e o imperialismo, contra o governo, seu lacaio, mas também dentro das nossas próprias fileiras, é indispensável manter a coragem de afirmar com firmeza as nossas posições, mesmo quando discordantes, pois a unidade de combate só se consegue com a discussão franca e livre dos problemas, que promova a unidade de pensamento indispensável à unidade consciente da acção para a vitória dos nossos ideais.

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