Intervenção de Ana Páscoa na homenagem aos Tarrafalistas

Intervenção de Ana Páscoa na homenagem aos Tarrafalistas, nos 90 anos da abertura do campo de concentração do Tarrafal

21 de Fevereiro de 2026

 

 

Caros amigos, camaradas e democratas aqui presentes
Caros familiares dos tarrafalistas que hoje homenageamos

Mais uma vez a União de Resistentes Antifascistas Portugueses promove uma homenagem aos “ que na longa noite do fascismo foram portadores da chama da liberdade e pela liberdade morreram no Campo do Tarrafal”.


Homenageamos os presos do Tarrafal, democratas que, de forma corajosa e combativa, lutaram contra o fascismo, pela conquista da liberdade e por uma sociedade democrática e mais justa, mas também estamos aqui numa jornada de afirmação e testemunho de que a resistência e a luta continuam.


Esta homenagem é hoje particularmente significativa pois este ano comemoramos os noventa anos de abertura do campo de concentração do Tarrafal, justamente designado por campo de morte lenta. Com efeito, o objectivo do fascismo ao enviar para o Tarrafal os resistentes antifascistas, comunistas, anarco sindicalistas e democratas era condená-los a uma morte lenta, pelas terríveis condições do campo, o isolamento, o clima propício ao aparecimento de doenças, para as quais não havia qualquer tipo de assistência; estas condições têm sido divulgadas diversas vezes, mas nunca é demais a sua evocação, para memória futura.


Inaugurado em 1936 para lá foram enviados 362 presos, comunistas, anarco sindicalistas e outros democratas; destes 32 morreram no campo, tendo sido trasladados para Portugal em 18 de Fevereiro de 1978, cuja memória aqui evocamos. Lembrar também, em relação aos sobreviventes, que muitos regressaram com a saúde fragilizada, tendo morrido vítimas de doenças contraídas no campo.


O Campo de Concentração do Tarrafal foi uma das faces mais hediondas dos crimes do fascismo: suportando condições desumanas, muitos dos presos no Tarrafal não estavam a cumprir o tempo das penas a que tinham sido condenados pelos tribunais fascistas; estavam em prisão preventiva e sem julgamento; outros ultrapassaram largamente o tempo de prisão a que tinham sido condenados. “O tempo de prisão dos 340 presos que passaram pelo Tarrafal somou dois mil anos, cinco meses e onze dias.


Dois mil anos de vida sacrificados num campo de paludismo e morte!” in: Dossier – 70 Anos Tarrafal “Campo de Morte Lenta” www.pcp.pt
O Tarrafal foi oficialmente encerrado em 1954, um ano depois do último preso, Francisco Miguel ter sido transferido para Caxias, mas reabriu em 1961 com patriotas africanos anticolonialistas de Angola, Guiné e Cabo Verde. O Campo foi encerrado a 1 de Maio de 1974, pelos militares do Movimento das Forças Armadas, que libertaram esses patriotas, na sequência da Revolução de Abril, que derrubou o fascismo e abriu portas para a democracia no nosso país.


Caros amigos e companheiros


Neste ano de 2026 assinalamos os 100 anos do início do fascismo em Portugal; em 28 de Maio de 1926 um golpe militar conduziu à instauração do fascismo, que durante 48 anos oprimiu, prendeu, torturou e assassinou muitos dos que tiveram a coragem de correr o risco de se oporem à ditadura. A esses antifascistas também hoje e aqui é justo prestarmos a nossa reconhecida homenagem, pelo seu exemplo e contributo para a conquista da liberdade de que hoje disfrutamos.


O regime fascista foi uma ditadura criminosa, ao serviço dos monopólios e dos grandes agrários, que concentravam na sua posse todos os recursos, condenando a grande maioria da população à miséria; foi uma ditadura criminosa, com repressão generalizada sobre qualquer tentativa de oposição, e utilizando como especial instrumento de controlo a polícia política a Pide; foi uma ditadura criminosa que assassinou friamente antifascistas, torturou nas prisões. O regime fascista impediu também o desenvolvimento económico, social e cultural; largos milhares de trabalhadores viram-se obrigados a emigrar, como refere o poema de Manuel Alegre:
 “ Vi minha pátria derramada/ na gare de Austerlitz.  Eram cestos/   e cestos pelo chão.  Pedaços/   do meu país./ Restos./   Braços./ 
Minha pátria sem nada/sem nada/despejada nas ruas de Paris.”


Mas com o 25 de Abril voltou a esperança a este povo silenciado: acabou a ditadura fascista, a repressão, a violência, a guerra colonial, e iniciaram-se passos para ultrapassar o atraso económico, social e cultural, para acabar com as desigualdades e a pobreza, em suma iniciou-se o processo de democratização do país. Em 1975 realizaram-se as primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte e em 2 de Abril de 1976 foi votada a Constituição, que consagrou as conquistas da Revolução. É justo hoje e aqui também prestarmos homenagem aos 50 anos da Constituição, que apesar de sucessivos ataques e alterações de que tem sido alvo, é uma lei progressista quer pelos direitos que consagra, quer pelas soluções que aponta para a resolução dos problemas do país.


“Esta é uma Constituição aventurosa, projecto de vida certa deste povo e para este povo” Maria Velho da Costa. É dever de todos os democratas exigir o seu cumprimento, pois a Constituição é essencial para a defesa da própria democracia. “mas destruir estas tábuas seria destruir algo daquilo em que sempre fomos grandes – a capacidade de inscrever o sonho realizável na memória e no assombro de outros povos”


Caros amigos e camaradas


Vivemos tempos conturbados a nível nacional e mundial. Assistimos ao ascenso das forças de extrema direita e fascistas que, aproveitando sentimentos de insegurança e da falta de resposta aos problemas que afligem os povos, lançam ataques de ódio e intolerância, ideias racistas que têm algum eco junto dos mais desfavorecidos. Em Portugal assistimos a uma escalada das forças reaccionárias, que tentam subverter o regime democrático; é fundamental a nossa coragem e determinação para combater e derrotar definitivamente essas forças, e devolver ao povo português o horizonte de esperança que Abril abriu.


A União de Resistentes Antifascistas Portugueses, ao longo dos seus cinquenta anos de existência, tem desenvolvido intensa actividade de denúncia e combate contra as forças da opressão e pela defesa dos ideais de Abril, pela Paz e solidariedade entre os povos. Hoje e sempre continuaremos a lutar, ao lado de outras forças democratas, contra as desigualdades, a exploração, a miséria, a fome, a falta de habitação condigna, a ausência de condições de acesso aos cuidados de saúde.


Mas hoje um outro combate também se impõe: o combate contra aqueles que querem reescrever a História, e branquear o passado, manipulando através dos órgãos de comunicação e redes sociais a opinião pública, com especial incidência nos jovens, tentando apagar o que foi a resistência e a luta contra o terror fascista.
Mas nós não esquecemos e assumimos o compromisso já aqui referido na homenagem que fizemos no ano passado, de uma deslocação a Cabo Verde, para, em conjunto com as autoridades desse país, assinalar condignamente a 29 de Outubro de 2026, os 90 anos de abertura do Tarrafal, homenageando os resistentes e lutadores antifascistas e anticolonialistas. Também a URAP tem em preparação um livro, com elementos novos e que se pretende que seja mais uma voz de denúncia e alerta.


Hoje e aqui nesta homenagem aos tarrafalistas reafirmamos a importância do seu exemplo, coragem e sacrifício, com o compromisso de tudo fazer para que o crime do Tarrafal não seja esquecido e que jamais se repita. Contra o fascismo e o colonialismo, Tarrafal nunca mais!
Viva o 25 de Abril!


25 de Abril sempre/ Fascismo nunca mais!

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