Maria José Ribeiro, a democrata, a antifascista, a ex-presa política, a dirigente da URAP, a sindicalista fundadora da CGTP, a militante comunista e membro do Movimento Democrático de Mulheres (MDM) fez 90 anos no passado dia 12 de Janeiro.
Para assinalar a data, o núcleo do Porto da URAP organizou um jantar no auditório da "Beneficência Familiar" com cerca de 120 amigas e amigos, companheiros de lutas de longa data e de outras mais recentes, com direito a bolo, música, poesia e palavras de amizade e respeito.
Sónia Ferreira dedicou-lhe um poema; Ana Ribeiro cantou canções da sua preferência; o grupo Maduro Maio cantou Lopes Graça; Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP, enviou-lhe uma mensagem; José Pedro Soares, coordenador da URAP, lembrou o seu papel de fundadora; Teresa Lopes, do núcleo da URAP, considerou-a um exemplo de coragem, coerência e integridade; Avelino Gonçalves, companheiro nas lides sindicais que levaram à criação da CGTP, fez um testemunho; Joana Teixeira falou em nome do MDM; e Carolina Teixeira, estudante de mestrado, que a entrevistou para a sua dissertação fez uma saudação.
No final, Maria José Ribeiro, a homenageada, aludindo ao seu percurso de vida, mostrou bem aos presentes que a resistência às adversidades e injustiças sofridas por ela e sua família durante o fascismo, bem como a certeza da bondade dos objectivos de luta forjaram a sua personalidade.
Maria José Ribeiro foi no Dia da Mulher, em 2005, homenageada pela Câmara Municipal de Matosinhos e, em 2022, recebeu da Câmara Municipal do Porto a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro.
José Pedro Soares lembrou os 50 anos da criação da URAP de que a Maria José foi também fundadora, o trabalho que vem desenvolvendo em termos nacionais com crescente reconhecimento, mas também os perigos que espreitam os portugueses com o avanço da extrema-direita, e o agravamento dos problemas do povo sem solução nas políticas de sucessivos governos.
Teresa Lopes começou por citar uma frase, que considerou uma lição, de Maria José Ribeiro que diz que mesmo nos tempos difíceis, de prisão e tortura, saber por que se luta ajuda muito, e vai buscar-se forças ao impossível, para afirmar que “a vida da Maria José Ribeiro - 38 vividos em regime fascista, 52 pós-Revolução de Abril em liberdade, mas com muitos pedregulhos no caminho - é um exemplo de coragem, coerência, integridade”.
A oradora traça o perfil biográfico de Maria José Ribeiro, de família antifascista, tendo o seu pai sido preso no Campo de Concentração do Tarrafal, oriunda da classe trabalhadora, subindo no elevador social mais tarde graças ao seu esforço. A sua intervenção cívico-política, a primeira prisão, forjaram a mulher que hoje é.
“A Maria José fez-se lutadora das grandes causas humanistas de sempre: a Paz e Solidariedade. Foi membro da primeira Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos; a luta por uma sociedade mais justa, sem exploração do homem pelo homem que a levou a aderir aos 20 anos ao Partido Comunista Português, então na mais rigorosa clandestinidade e onde, leal e convictamente continua militante; a causa da emancipação e da igualdade de direitos entre homens e mulheres que a levou a ser fundadora do Movimento Democrático de Mulheres; a causa da indispensável organização dos trabalhadores nos sindicatos unitários que a levou até à direção do Sindicato dos Seguros, ou já depois do 25 de Abril a sua intervenção no Poder Local, na Assembleia Municipal de Matosinhos”, disse.
Teresa Lopes sublinhou que a homenageada continua hoje a lutar por causas justas no seio da URAP como “a criação do Museu da Resistência ao Fascismo naquele que foi o tenebroso edifício da Pide no Porto e em 1977 passou a ser Museu Militar. (…) A identificação dos espaços, do que era o percurso dos presos políticos até aos gabinetes de interrogatório e tortura, ficou consagrado num protocolo da URAP com o Exército. Muito falta ainda para a concretização do projecto museológico, mas a Maria José nunca desistiu e nós não desistimos!”
Avelino Gonçalves, fundador da CGTP, ex-ministro do Trabalho em 1974, e deputado à Constituinte, recordou “o tarrafalista Joaquim Ribeiro, que teve a honra de conhecer”, para afirmar que Maria José, que nunca viu zangada ou perder a cabeça, “herdou de seu pai uma postura social e política de uma serenidade impressionante. (…) com uma calma soberana puxou sempre a luta para a frente e trouxe mais gente para a luta como se fosse a ordem natural das coisas”.
Em seguida, o orador fez um retrato do percurso político de Maria José Ribeiro junto dos jovens, das mulheres, em associações, autarquias, delegações internacionais, antes e depois de Abril, para terminar dizendo que ela “vai continuar por muito tempo na luta por uma sociedade mais justa, solidária e pacífica”.
Joana Teixeira falou em representação do MDM, movimento que Maria José Ribeiro ajudou a fundar. A tónica da sua intervenção focou-se num encontro de trabalho que manteve com ela, para terminar enaltecendo a vivência e as memórias da aniversariante que relembram a necessidade de permanência na luta.
“Nunca esquecerei o momento em que, no ano passado, o nosso movimento juntou a Maria José e a Faustina Barradas para uma conversa. Uma conversa que, para além de verdadeiramente esclarecedora da vida sob o fascismo, foi especial. Guardo-a muito carinhosamente no meu coração. Num momento de grande intimidade, a Maria José contou-nos episódios da sua longa vida. Recordo especialmente as suas memórias sobre a primeira manifestação do Dia Internacional da Mulher. Face à falta de comparência de uma outra companheira, a Maria José atirou os papéis que trazia bem escondidos no bolso. Eram apelos à liberdade, à paz e ao pão que, em tempos de guerra, tanto faltava ao país. Outros companheiros juntaram-se nas palavras de ordem na Praça da Liberdade naquele dia 8 de março de 1962. Entre esses companheiros estava o seu pai, anteriormente preso na Revolta dos Marinheiros e enviado posteriormente para o Campo de Concentração do Tarrafal. Avisou-a que a praça estava cheia de polícia política. E, na subida da Rua 31 de janeiro, no centro histórico da cidade do Porto, foi presa juntamente com o seu pai. Essa seria a sua segunda prisão, desta vez atormentada com a grande probabilidade de tortura do seu pai no edifício do atual Museu Militar do Porto. Foi brutalmente tratada pela polícia política, mas esse facto não a afastou da luta”, contou Joana Teixeira.
Entre os participantes no jantar esteve Carolina Teixeira, uma estudante de mestrado que conheceu Maria José Ribeiro no âmbito da escrita da sua dissertação, que analisava experiências de tortura sofridas por mulheres resistentes antifascistas.
Na sua saudação, Carolina Teixeira relatou como foi recebida por Maria José, que não conhecia, e “o seu contributo, de enorme valor, que permitiu que conhecesse a história de vida de uma mulher verdadeiramente extraordinária, que é, para nós, enquanto jovens, um exemplo”.
Depois de dizer que Maria José Ribeiro transmitiu-lhe “valores fundamentais: a resiliência, o espírito de sacrifício, e a luta pela dignidade humana, pela paz e pela justiça social”, a jovem mestranda falou do perigo do esquecimento e “agradeceu a disponibilidade e o compromisso contínuo com a transmissão da memória”.
Sónia Ferreira dedicou-lhe um poema; Ana Ribeiro cantou canções da sua preferência; o grupo Maduro Maio cantou Lopes Graça; Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP, enviou-lhe uma mensagem; José Pedro Soares, coordenador da URAP, lembrou o seu papel de fundadora; Teresa Lopes, do núcleo da URAP, considerou-a um exemplo de coragem, coerência e integridade; Avelino Gonçalves, companheiro nas lides sindicais que levaram à criação da CGTP, fez um testemunho; Joana Teixeira falou em nome do MDM; e Carolina Teixeira, estudante de mestrado, que a entrevistou para a sua dissertação fez uma saudação.
No final, Maria José Ribeiro, a homenageada, aludindo ao seu percurso de vida, mostrou bem aos presentes que a resistência às adversidades e injustiças sofridas por ela e sua família durante o fascismo, bem como a certeza da bondade dos objectivos de luta forjaram a sua personalidade.
Maria José Ribeiro foi no Dia da Mulher, em 2005, homenageada pela Câmara Municipal de Matosinhos e, em 2022, recebeu da Câmara Municipal do Porto a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro.
José Pedro Soares lembrou os 50 anos da criação da URAP de que a Maria José foi também fundadora, o trabalho que vem desenvolvendo em termos nacionais com crescente reconhecimento, mas também os perigos que espreitam os portugueses com o avanço da extrema-direita, e o agravamento dos problemas do povo sem solução nas políticas de sucessivos governos.
Teresa Lopes começou por citar uma frase, que considerou uma lição, de Maria José Ribeiro que diz que mesmo nos tempos difíceis, de prisão e tortura, saber por que se luta ajuda muito, e vai buscar-se forças ao impossível, para afirmar que “a vida da Maria José Ribeiro - 38 vividos em regime fascista, 52 pós-Revolução de Abril em liberdade, mas com muitos pedregulhos no caminho - é um exemplo de coragem, coerência, integridade”.
A oradora traça o perfil biográfico de Maria José Ribeiro, de família antifascista, tendo o seu pai sido preso no Campo de Concentração do Tarrafal, oriunda da classe trabalhadora, subindo no elevador social mais tarde graças ao seu esforço. A sua intervenção cívico-política, a primeira prisão, forjaram a mulher que hoje é.
“A Maria José fez-se lutadora das grandes causas humanistas de sempre: a Paz e Solidariedade. Foi membro da primeira Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos; a luta por uma sociedade mais justa, sem exploração do homem pelo homem que a levou a aderir aos 20 anos ao Partido Comunista Português, então na mais rigorosa clandestinidade e onde, leal e convictamente continua militante; a causa da emancipação e da igualdade de direitos entre homens e mulheres que a levou a ser fundadora do Movimento Democrático de Mulheres; a causa da indispensável organização dos trabalhadores nos sindicatos unitários que a levou até à direção do Sindicato dos Seguros, ou já depois do 25 de Abril a sua intervenção no Poder Local, na Assembleia Municipal de Matosinhos”, disse.
Teresa Lopes sublinhou que a homenageada continua hoje a lutar por causas justas no seio da URAP como “a criação do Museu da Resistência ao Fascismo naquele que foi o tenebroso edifício da Pide no Porto e em 1977 passou a ser Museu Militar. (…) A identificação dos espaços, do que era o percurso dos presos políticos até aos gabinetes de interrogatório e tortura, ficou consagrado num protocolo da URAP com o Exército. Muito falta ainda para a concretização do projecto museológico, mas a Maria José nunca desistiu e nós não desistimos!”
Avelino Gonçalves, fundador da CGTP, ex-ministro do Trabalho em 1974, e deputado à Constituinte, recordou “o tarrafalista Joaquim Ribeiro, que teve a honra de conhecer”, para afirmar que Maria José, que nunca viu zangada ou perder a cabeça, “herdou de seu pai uma postura social e política de uma serenidade impressionante. (…) com uma calma soberana puxou sempre a luta para a frente e trouxe mais gente para a luta como se fosse a ordem natural das coisas”.
Em seguida, o orador fez um retrato do percurso político de Maria José Ribeiro junto dos jovens, das mulheres, em associações, autarquias, delegações internacionais, antes e depois de Abril, para terminar dizendo que ela “vai continuar por muito tempo na luta por uma sociedade mais justa, solidária e pacífica”.
Joana Teixeira falou em representação do MDM, movimento que Maria José Ribeiro ajudou a fundar. A tónica da sua intervenção focou-se num encontro de trabalho que manteve com ela, para terminar enaltecendo a vivência e as memórias da aniversariante que relembram a necessidade de permanência na luta.
“Nunca esquecerei o momento em que, no ano passado, o nosso movimento juntou a Maria José e a Faustina Barradas para uma conversa. Uma conversa que, para além de verdadeiramente esclarecedora da vida sob o fascismo, foi especial. Guardo-a muito carinhosamente no meu coração. Num momento de grande intimidade, a Maria José contou-nos episódios da sua longa vida. Recordo especialmente as suas memórias sobre a primeira manifestação do Dia Internacional da Mulher. Face à falta de comparência de uma outra companheira, a Maria José atirou os papéis que trazia bem escondidos no bolso. Eram apelos à liberdade, à paz e ao pão que, em tempos de guerra, tanto faltava ao país. Outros companheiros juntaram-se nas palavras de ordem na Praça da Liberdade naquele dia 8 de março de 1962. Entre esses companheiros estava o seu pai, anteriormente preso na Revolta dos Marinheiros e enviado posteriormente para o Campo de Concentração do Tarrafal. Avisou-a que a praça estava cheia de polícia política. E, na subida da Rua 31 de janeiro, no centro histórico da cidade do Porto, foi presa juntamente com o seu pai. Essa seria a sua segunda prisão, desta vez atormentada com a grande probabilidade de tortura do seu pai no edifício do atual Museu Militar do Porto. Foi brutalmente tratada pela polícia política, mas esse facto não a afastou da luta”, contou Joana Teixeira.
Entre os participantes no jantar esteve Carolina Teixeira, uma estudante de mestrado que conheceu Maria José Ribeiro no âmbito da escrita da sua dissertação, que analisava experiências de tortura sofridas por mulheres resistentes antifascistas.
Na sua saudação, Carolina Teixeira relatou como foi recebida por Maria José, que não conhecia, e “o seu contributo, de enorme valor, que permitiu que conhecesse a história de vida de uma mulher verdadeiramente extraordinária, que é, para nós, enquanto jovens, um exemplo”.
Depois de dizer que Maria José Ribeiro transmitiu-lhe “valores fundamentais: a resiliência, o espírito de sacrifício, e a luta pela dignidade humana, pela paz e pela justiça social”, a jovem mestranda falou do perigo do esquecimento e “agradeceu a disponibilidade e o compromisso contínuo com a transmissão da memória”.



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