Uma grande faixa, na qual se lia “Tarrafal nunca mais”, abriu hoje o cortejo em Lisboa desde a Praça Paiva Couceiro até ao memorial dos tarrafalistas no cemitério do Alto de S. João, onde decorreu a cerimónia anual de evocação e homenagem aos presos políticos que morreram no campo de concentração, em Cabo Verde.
Ana Páscoa, do Conselho Directivo da URAP, foi a oradora da cerimónia, apresentada por Inês Fonseca, do Conselho Nacional, que reuniu largar centenas de pessoas oriundas de vários núcleos da URAP do país, junto ao mausoléu onde se lê “Aos que na longa noite do fascismo foram portadores da chama da liberdade e pela liberdade morreram no Campo do Tarrafal”.
Depois da oradora afirmar que a cerimónia era, simultaneamente, de homenagem aos presos no Tarrafal e a todos os que lutaram contra o fascismo, e “uma jornada de afirmação e testemunho de que a resistência e a luta continuam”, lembrou que este ano se assinalam os 90 anos da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal.
“O objectivo do fascismo ao enviar para o Tarrafal os resistentes antifascistas, comunistas, anarco-sindicalistas e democratas era condená-los a uma morte lenta, quer pelas terríveis condições do campo, o isolamento, o clima propício ao aparecimento de doenças, para as quais não havia qualquer tipo de assistência”, disse.
“Inaugurado em 1936 para lá foram enviados 362 presos, (…) destes 32 morreram no campo, tendo sido trasladados para Portugal em 18 de Fevereiro de 1978, cuja memória aqui evocamos”, lembrou.
“O Tarrafal foi oficialmente encerrado em 1954, um ano depois do último preso, Francisco Miguel, ter sido transferido para Caxias, mas reabriu em 1961 com patriotas africanos anticolonialistas de Angola, Guiné e Cabo Verde. O campo foi encerrado a 1 de Maio de 1974, pelos militares do Movimento das Forças Armadas, que libertaram esses patriotas, na sequência da Revolução de Abril, que derrubou o fascismo e abriu portas para a democracia no nosso país”, afirmou Ana Páscoa.

“Neste ano de 2026 assinalamos os 100 anos do início do fascismo em Portugal; em 28 de Maio de 1926 um golpe militar conduziu à instauração do fascismo, que durante 48 anos oprimiu, prendeu, torturou e assassinou muitos dos que tiveram a coragem de correr o risco de se oporem à ditadura. A esses antifascistas também hoje e aqui é justo prestarmos a nossa reconhecida homenagem, pelo seu exemplo e contributo para a conquista da liberdade de que hoje disfrutamos”, acrescentou.
Após recordar que “o regime fascista para além de ter sido uma ditadura criminosa ao serviço dos monopólios e dos grandes agrários, (…) também impediu o desenvolvimento económico, social e cultural” que levou a que “largos milhares de trabalhadores fossem obrigados a emigrar”, Ana Páscoa citou um poema de Manuel Alegre sobre este tema: “Vi minha pátria derramada/ na gare de Austerlitz. Eram cestos/ e cestos pelo chão. Pedaços/ do meu país./ Restos./ Braços./ Minha pátria sem nada/sem nada/despejada nas ruas de Paris”.

Para a oradora, o 25 de Abril de 1974, com o fim da ditadura e das guerras coloniais, as eleições livres, a nova Constituição de 1976, abriu caminho à democratização do país, neste momento em causa com “os tempos conturbados que vivemos a nível nacional e mundial”.
“Assistimos ao ascenso das forças de extrema-direita e fascistas que, aproveitando sentimentos de insegurança e da falta de resposta aos problemas que afligem os povos, lançam ataques de ódio e intolerância, ideias racistas que têm algum eco junto dos mais desfavorecidos”, garantiu.
“Em Portugal assistimos a uma escalada das forças reaccionárias, que tentam subverter o regime democrático; é fundamental a nossa coragem e determinação para combater e derrotar definitivamente essas forças, e devolver ao povo português o horizonte de esperança que Abril abriu”, adicionou.
Após recordar que “a União de Resistentes Antifascistas Portugueses, ao longo dos seus 50 anos de existência, tem desenvolvido intensa actividade de denúncia e combate contra as forças da opressão e pela defesa dos ideais de Abril, pela Paz e solidariedade entre os povos”, sublinhou que “hoje um outro combate também se impõe: o combate contra aqueles que querem reescrever a História, e branquear o passado, manipulando através dos órgãos de comunicação e redes sociais a opinião pública, com especial incidência nos jovens, tentando apagar o que foi a resistência e a luta contra o terror fascista”.
A cerimónia terminou com uma actuação do coro Lopes-Graça, dirigido pelo maestro Alexandre Weffort, que tocou "Elegia, em Homenagem a António Borges Coelho", uma composição em flauta preparada tocada em público apenas no velório do historiador antifascita, falecido em Outubro de 2015. Numa pequena intervenção, o maestro manifestou a necessidade da luta pela paz e contra o fascismo, luta na qual a arte se insere.
O coro cantou várias das Canções Heróicas, como Acordai, Firmeza e Jornada, com letra dos poetas José Gomes Ferreira e João José Cochoffel, terminando com Grândola Vila Morena, de José Afonso.


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