A morte saiu à rua num dia assim

Naquele lugar sem nome pra qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai

E um rio de sangue dum peito aberto sai

 

 

O vento que dá nas canas do canavial

E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu

Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

 

 

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual

Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina, à morte que te matou

Teu corpo pertence à terra que te abraçou

 

 

Aqui te afirmamos dente por dente assim

Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada, há covas feitas no chão

E em todas florirão rosas duma nação

 

José Afonso 
dedicado a José Dias Coelho

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Reportagem sob a Forca de Julius Fucik
por Gustavo Carneiro

Um homem só no segredo
sabe um segredo profundo
nunca está só nem tem medo
quem ama os homens e o mundo

 

Carlos Aboim Inglez

VIVER PELA ALEGRIA E POR ELA MORRER

reportagem_sob_a_forca«Vivemos para a alegria, por ela fomos para o combate e por ela morremos: Que nunca se junte a tristeza ao nosso nome.» Assim escrevia, a 19 de Maio de 1943, o jornalista comunista checoslovaco Julius Fucik, na prisão da Gestapo na Praga ocupada pelos nazis, onde seria executado no dia 8 de Setembro do mesmo ano. Os seus escritos na prisão, iniciados poucos dias depois da sua captura, dos primeiros «interrogatórios» e brutais torturas foram, após a sua morte, compilados numa obra a que se deu o nome «Reportagem sob a forca» e que as edições Avante! publicaram em 1975, uma vez terminada a ditadura fascista em Portugal.
Escrita em condições extremamente difíceis - com papel e lápis que entrava secretamente na cela -, a obra saiu igualmente de forma clandestina da prisão com a ajuda do guarda Kolinsky, em folhas numeradas e guardadas pela «boa gente checa», como lhes chamou Gusta Fuciková, companheira de Julius Fucik. Foi precisamente Gustina (como Fucik carinhosamente apelidava a mulher amada) que, regressada a Praga, conseguiu reunir as folhas soltas e terminar a última e mais famosa obra do marido.
Obra essa que correu mundo e, como escreve Gusta Fuciková no prefácio à edição portuguesa, «reconfortava tanto os combatentes do Vietname como os de Cuba e da América Latina». O poeta chileno Pablo Neruda, que dedicou um poema ao comunista checoslovaco, afirmou em 1950 no II Congresso dos Defensores da Paz, que «vivemos na época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples... Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade mas de um construtor da liberdade e da paz».

Sob a forca

julius_fucikPara além da sensibilidade e coragem revolucionária do autor, e das duras condições em que foi escrito, do livro perpassa a confiança no futuro que Julius Fucik manteve até ao último suspiro de vida. Mesmo quando se encontrava às portas da morte, Fucik nunca duvidou da justeza dos seus ideais e da Vitória próxima dos que por eles lutavam. E nunca deixou de amar a vida.
Após uma sessão de duras torturas, escreve: «Estou a agonizar. Demoraste muito a chegar, morte. Apesar de tudo, esperava conhecer-te mais tarde, daqui a muitos anos. Esperava viver ainda a vida de um homem livre: poder trabalhar muito, amar muito, cantar muito e correr mundo.»
Consciente desde a primeira hora do fim que lhe estava destinado - a morte - nunca vacilou e não denunciou nenhum dos seus camaradas. «Sempre contámos com a morte. Já sabíamos: cair nas mãos da Gestapo quer dizer o fim. E aqui fizemos o que fizemos de acordo com essa convicção. Também a minha obra se aproxima do fim. Não posso descrevê-lo. Não o conheço. Já não é uma obra. É a vida. E na vida não há espectadores. A cortina sobe. Homens: amei-vos. Estai vigilantes!», escreveu, um mês antes da sua execução.
«Mesmo mortos, viveremos num cantinho da vossa felicidade porque por essa felicidade demos a nossa vida. E isso dá-nos alegria...» Assim se despediu da Humanidade que amou e pela qual se bateu até ao fim prematuro dos seus dias - tinha apenas 40 anos.

Um amor imenso

O amor de Fucik pela sua companheira, Gusta Fuciková, revela-se na obra. «Esta noite os nazis levaram a minha Gustina para a Polónia, para "trabalhar". Para a escravidão, para a morte pelo tifo. Restam-me algumas semanas, talvez dois ou três meses de vida (...) Esta reportagem já não será completada. Se durante estes dias tiver possibilidade, procurarei continuá-la. Hoje não posso. Tenho a cabeça e o coração cheios de Gustina, essa mulher nobre, companheira tão querida, fervorosa e abnegada na minha vida insegura e nunca tranquila.»
Em tempos difíceis, de clandestinidade, prisão, tortura e separação, nunca os seus corações deixaram de bater em uníssono e nunca a ternura deixou de guiar as suas vidas.
O episódio do último encontro revela os sentimentos que os uniam e a sua grandeza moral. Depois de torturarem violentamente Fucik - e de não lhe arrancarem uma palavra -, os nazis usam Gusta como ameaça. O chefe da secção da Gestapo advertiu: «Tem uma hora para reflectir. Se passado este tempo aquela cabeça teimosa não ceder, são fuzilados esta tarde. Os dois.» A resposta não podia ser mais digna: «Senhor comissário, isso para mim não é uma ameaça. É o meu último desejo. Se o executarem a ele, executem-me a mim também.» Fucik levou orgulhosamente consigo esta imagem e deixou-a fixada na sua obra. «Ei-la. Esta é Gustina: amor e firmeza. Podem tirar-nos a vida, não é verdade, Gustina? Mas nunca a nossa honra e o nosso amor.»
Mais do que um livro histórico, «Reportagem sob a forca» é uma obra que exalta os mais puros sentimentos humanos: o amor, a alegria, a dignidade, a coragem, a confiança no futuro, a luta por um mundo melhor. A sua leitura é, hoje, obrigatória.


Edição Nº1654
http://www.avante.pt - Jornal «Avante!»

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La Lámpara Marina

Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalas de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.
Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entremontes azules,
la polícia
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.

Oh Portugal hermoso,
cesta de fruta y flores,
emerges
en la orilla plateada del océano,
en la espuma de Europa,
con la cítara de oro
que te dejó Camoens,
cantando con dulzura,
esparciendo en las bocas del Atlántico
tu tempestuoso olor de vinerías,
de azahares marinos,
tu luminosa luna entrecortada
por nubes e tormentas.

Pero,
portugués de la calle,
entre nosotros,
nadie nos escucha,
sabes dónde está Álvaro Cunhal?
Reconoces la ausencia
del valiente
Militao?
Muchacha portuguesa,
pasas como bailando
por las calles rosadas de Lisboa,
pero, sabes dónde cayó Bento Gonçalves,
el portugués más puro,
el honor de tu mar y de tu arena?
Sabes
que existe
una isla,
la Isla de la Sal
y Tarrafal en ella
vierte sombra?
Sí, lo sabes, muchacha,
muchacho, sí, lo sabes.
En silencio
la palabra
anda con lentitud pero recorre
no sólo el Portugal, sino la tierra.
Sí sabemos,
en remotos países,
que hace trinta años
una lápida
espesa como tumba o como túnica
de clerical murciélago,
ahoga, Portugal, tu triste trino,
salpica tu dulzura
con gotas de martirio
y mantiene sus cúpulas de sombra.

De tu mano pequeña en otra hora
salieron criaturas
desgranadas
en el asombro de la geografía.
Así volvió Camoens
a dejarte una rama de jazmines
que siguió floreciendo.
La inteligencia ardió como una viña
de transparentes uvas
en tu raza.
Guerra Junqueiro entre las olas
dejó caer su trueno
de libertad bravía
que transportó el océano en su canto,
y otros multiplicaron
tu esplendor de rosales y racimos
como si de tu territorio estrecho
salieron grandes manos
derramando semillas
para toda la tierra.

Sin embargo,
el tiempo te ha enterrado.
El polvo clerical
acumulado en Coimbra
cayó en tu rostro
de naranja oceánica
y cubrió el esplendor de tu cintura.

Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas del Océano.
Portugal, navegante, descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipiélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan sobre
la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.

Cómo es esto?

Cómo puedes negarte
al cielo de la lúz tú, que mostraste
caminos a los ciegos?

Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?

Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telarañas
que cubrentu fragante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descobrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llegó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:

aprenderás de nuevo a ser estrella.

 

Pablo Neruda
(1953)

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