Antifascistas

Intervenção de Margarida Tengarrinha

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez - 8 de Março de 2013

 

Em 8 de Março de 1952, há exactamente sessenta e um anos, numa sessão comemorativa deste dia promovida pela Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Maria Isabel Aboim Inglez desenvolveu brilhantemente as suas ideias sobre a guerra e a paz. Ao seu lado, e um pouco intimidada, fiz a minha primeira intervenção pública e devo confessar que a improvisação me correu muito mal. Com dificuldade em terminá-Ia, optei por apelar à subscrição dos dois abaixo-assinados que no MUD Juvenil andávamos a recolher: o Apelo de Estocolmo, contra o armamento atómico e o Apelo para um Pacto de Paz entre as Cinco Grandes Potências.

Como me viu triste pelo meu fraco desempenho, no fim da sessão a Dra. Maria Isabel aconselhou-me :"É sempre melhor trazer a intervenção escrita, mas mais importante do que um bom discurso é ter a coragem de apelar à luta. como o fizeste!"

 

Ora sobre a Dra. Maria Isabel Aboim Inglez há uma característica que regista a unanimidade dos seus companheiros de luta e de todos aqueles que a admiravam e admiram: é a sua extraordinária coragem de combatente antifascista. A ferocidade implacável com que a perseguiu o seu inimigo, o ditador fascista Salazar, é outra forma de confirmação que via nela uma mulher que lhe fazia frente com uma coragem sem vacilações e uma firmeza de carácter baseada em convicções fundamentadas em princípios teóricos que adoptara e a que era fiel. Essa perseguição constante e sem tréguas para a fazer vergar e desistir das suas convicções não a envolveu só a ela, mas aos próprios filhos.

Contudo, nem a família nem os amigos mais chegados lhe ouviram nunca uma palavra de desalento, um queixume ou um momento de desânimo. Por isso o poeta José Gomes Ferreira lhe chamou "A Indomável" e muitos a classificaram como "A Mulher sem Medo'', naquela época em que em Portugal o medo era a arma que a ditadura fascista lançava como uma rede paralisante sobre o país, tirando não só a liberdade, mas também o pão aos adversários. Esta última ameaça não era menos eficaz do que a repressão violenta, as prisões, torturas e assassínios, pois o medo de perder o pão atemorizava e incapacitava para a acção uma parte importante dos portugueses revoltados contra o regime. (Note-se que esta forma de tentar dominar as consciências não é exclusiva de regimes fascistas, mas é utilizada por muitas outras entidades com os mesmos propósitos de intimidação.)

Salazar usou contra Maria Isabel Aboim Inglez essas duas formas de repressão: não só a prisão, mas muito particularmente a retirada, por todas as formas, dos meios de ganhar a vida profissionalmente, quando já era viúva e mãe de cinco filhos. Foi presa pela primeira vez pela PIDE em 13 de Dezembro de 1946, sendo libertada no dia seguinte, juntamente com outros membros da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), mediante uma caução obtida pela oposição através de uma recolha pública. Dois anos depois, em Janeiro 1948, voltou a ser presa por causa da distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, sendo libertada dois meses depois. A terceira prisão, efectuada em pleno Tribunal Plenário onde, como muitas outras vezes, foi testemunha de defesa de presos políticos, deveu-se à firmeza com que enfrentou o juiz presidente, que ordenou a sua prisão por três dias alegando "falta de respeito ao tribunal" e enviando-a para as Mónicas, prisão comum de onde saiu dizendo que "até tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas, tendo feito ali um estudo sociológico", como afirmou a uma jornalista a sua filha Isabel.

No entanto, não é nestas prisões que reside a mais terrível e feroz perseguição de que a Dra. Maria Isabel foi vítima, mas sim no cerceamento e proibição final da sua condição de pedagoga, para a qual tinha um talento excepcional, reconhecido ao mais alto nível nos meios universitários e pelos alunos para os quais foi uma professora inesquecível. Ao recordarmos o percurso de vida desta mulher excepcional, destaco alguns traços marcantes; o seu casamento aos vinte anos com Carlos Aboim Inglez, engenheiro químico e de minas, que no dizer de Henrique de Barros "...foi um combatente sem tréguas contra a ditadura, a tudo disposto para a derrubar, mesmo a pegar em armas, como posso testemunhar pessoalmente" (H.de B.num artigo de opinião ao Diário de Lisboa).

Depois da morte prematura do marido Maria Isabel, que era uma pessoa muito contida e de grande sobriedade na expressão dos sentimentos, diria num desabafo nada habitual nela, que estava profundamente apaixonada por ele. Foi de certo um casamento de grande entendimento e apoio mútuo, entre duas pessoas com uma inteligência acima do vulgar, o que se reflectiu no estímulo do marido para que retomasse os estudos. Ela própria, depois do nascimento do quinto filho, sentiu (cito): "o prazer de aprender, de me cultivar, aliado ao desejo de preparar bem os meus filhos e de ser útil.", como afirmou Maria Luísa Silva Bastos, com quem trabalhou na AFPP. ("Capital" 9/3/83) Assim, matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa. Terminado o curso, em 1936, Maria Isabel foi logo convidada pelo professor Matos Romão para assistente de Psicologia Experimental, que não aceitou por razões familiares, pois os filhos eram ainda muito pequenos. Em 1938 apresentou a tese de licenciatura sobre a influência dos descobrimentos na sociedade portuguesa, que defendeu brilhantemente. Munida do diploma, fundou com o marido o Colégio Fernão de Magalhães na Rua dos Lusíadas, em Alcântara que, pela qualidade do ensino ministrado, adquiriu um enorme prestígio.

Foi esse prestígio, a grande frequência e os princípios pedagógicos ali desenvolvidos, nada frequentes nessa época, que desencadearam as primeiras perseguições do regime. Talvez porque o ensino do Colégio fosse laico, mesmo no prédio ao lado foi fundado um colégio religioso, o Ave Maria. Este foi o primeiro confronto.

O Dr. Matos Romão, que tinha enorme consideração pela Dra. Maria Isabel, voltou a convidá-la em 1941 como assistente para a cadeira de Psicologia Experimental, o que ela aceitou. No ano seguinte, com 39 anos, perdeu o marido, o que para ela foi um enorme golpe. Mas continuou; e poucos meses depois o seu nome foi aprovado pelo Conselho da Faculdade de Letras como assistente de Psicologia e também para ensinar Filosofia Antiga e História da Filosofia Medieval. Mas em Dezembro de 1942 foi afastada por veto do ministro da Educação, Mário Figueiredo.

Manteve-se ainda como assistente de Psicologia Experimental por insistência do Dr. Matos Romão que a defendeu junto do ministro. Mas as imposições que limitavam a sua actividade docente eram tão contrárias aos seus princípios e à dignidade que a caracterizava, que acabou por abandonar o ensino universitário em 1943. Esta foi uma segunda fase das perseguições de que foi vítima.

Já então tinha iniciado alguma actividade política ligada à oposição antifascista onde se encontravam amigos de longa data do casal. Seu filho Carlos Aboim Inglez contou-me que em casa dos pais conheceu, corno visitantes assíduos, o professor Bento de Jesus Caraça e Ramos da Costa, que eram membros do Partido Comunista (Ramos da Costa passou mais tarde para o Partido Socialista) e ainda o professor Dias Amado e Manuel Mendes, entre outros intelectuais com os quais conviveu quando era muito jovem. A seguir ao fim da guerra aderiu ao então criado Movimento de Unidade Democrática (MUD) e em 1946 foi a primeira mulher a fazer parte da sua comissão central. A tomada dessa clara posição acarretou-lhe novas perseguições. Porque era reconhecidamente pioneira no ensino da Sociologia em Portugal, o Dr. Gentil Martins, director do IPO, convidou-a para leccionar um curso de Sociologia Geral na Escola Técnica de Enfermagem do Instituto Português de Oncologia. Só conseguiu dirigir esse curso nos anos de 1947 e 1948, pois foi proibida pelo governo de continuar a dar essas aulas em 1949. Mais uma perseguição, esta sem dúvida ligada ao facto de nesse ano fazer parte da comissão central da candidatura do general Norton de Matos. De resto, já nessa altura tinha um longo cadastro na PIDE. E a sua intensa actividade na candidatura do general Norton de Matos, com conferências, documentos de que foi

autora e abaixo-assinados, levou ao encerramento e cassação do alvará do Colégio Fernão de Magalhães e ainda, por decisão do Conselho de Ministros, foram-lhe retirados todos os diplomas que lhe permitiam leccionar.

A política fascista de tirar o pão aos adversários roubava a esta mulher, viúva e com cinco filhos, os meios de ganhar a vida profissionalmente. Verdadeiramente indomável, ela não vergou e montou um atelier de costura, ao mesmo tempo que começou a dar explicações e a fazer traduções. Mas as perseguições não se limitaram a ela própria e posteriormente alargaram-se também às filhas, pois foi retirado à filha Maria Luísa, pintora, o diploma que lhe permitia dar aulas de desenho na Escola Marquês de Pombal e a filha Margarida, engenheira agrónoma, que ficara em primeiro lugar num concurso público, foi impedida de manter-se na função pública. Em 1953, foi convidada a reger uma cátedra numa universidade brasileira dado o seu grande prestígio e também porque no Brasil estavam já vários amigos e conhecidos, que faziam parte dos muitos professores universitários demitidos por Salazar, numa razia que foi uma autêntica perda nacional. Entre eles contavam-se os professores catedráticos Zaluar Nunes, Pereira Gomes, Rodrigues Lapa, Agostinho da Silva e Jaime Cortesão, todos no Brasil. Mas a Maria Isabel foi recusado o passaporte, quando ela já tinha feito o leilão do recheio da casa e de grande parte dos livros e se preparava para

partir. Estas perseguições não a demoveram, talvez lhe tivessem dado mais forca para a luta, pois a sua actividade política até parece ter aumentado a partir daí, para além do grande e constante apoio que deu sempre ao seu filho Carlos, militante destacado do Partido Comunista Português, no decurso das numerosas prisões e dos anos que este passou nos cárceres fascistas.

As posições de Maria Isabel Aboim Inglez em relação ao Partido Comunista, a única força política organizada da Oposição, foram sempre muito claras: nunca foi membro do Partido Comunista, mas acompanhou sempre as posições do Partido nos vários movimentos da Oposição antifascista, quer no MUD, em que fez parte da direcção central, quer depois apoiando o MND, em que por divergências, já não participaram anteriores membros da direcção do MUD. Teve também um importante papel na Associação Portuguesa Feminina para a Paz e na luta pela Paz.

Com uma grande independência de pensamento e forte personalidade, dava sempre a sua opinião com frontalidade quando discordava, discutia muitas vezes com uma forte argumentação, como dizia dela Joaquim Pires Jorge, dirigente do Partido Comunista que com ela contactava.

Destacou-se sempre como uma personalidade de primeiro plano na defesa da unidade das forças democráticas e pela sua lealdade para com o Partido Comunista e os compromissos assumidos, quer nas várias campanhas democráticas, quer em todos os momentos eleitorais da época. Acentuo que, por exemplo em 1957 foi membro da Comissão Central da candidatura de Adindo Vicente, que era o candidato apoiado pelo PCP, e só depois da fusão das duas candidaturas é que apoiou a de Humberto Delgado, o que diz muito sobre as suas opções.

Também serviu muitas vezes de testemunha nos julgamentos políticos. A sua força, coragem e convicções são claramente reveladas na afirmação que fez, em pleno Tribunal Plenário fascista: "Todos os indivíduos que não prestam declarações na polícia são dignos de admiração porque são amantes da liberdade". E terminou dizendo; "é de louvar o Partido Comunista Português por assim proceder".

Afirmações como esta, mas particularmente algumas das suas conferências, como a que proferiu durante a campanha eleitoral de Norton de Matos com o tema "Conceitos de igualdade, liberdade e democracia", publicada pelos serviços da candidatura, o artigo intitulado "A Ética e a Política" publicado pela "República" quando do acto eleitoral de Novembro de 1961 para o qual só não foi candidata pela CDE porque verificou ter sido riscada dos cadernos eleitorais e que é um completo desenvolvimento programático antifascista, a própria tese de licenciatura, entrevistas e muitos outros documentos da sua autoria, mereciam ser estudados para melhor conhecermos a orientação e a profundidade de pensamento desta mulher.

Num debate em que criticava artigos da "Seara Nova" marcou a sua firme oposição crítica à teoria da cultura pela cultura, afirmando: "Duma elite de intelectuais nunca poderá esperar-se a realização das transformações necessárias para uma verdadeira democracia. Ela tem de ser a obra de todo um povo".

Há também por exemplo, uma conferência importante, proferida em 1950 em homenagem a Bento Caraça, de que citarei alguns excertos:

"Os destinos da humanidade preocuparam-no mais do que o seu próprio destino, os destinos do mundo tanto como os da sua pátria. Quanto o seu espírito estaria atormentado pela evolução destes dois últimos anos, em que abertamente se tem caminhado para uma nova tentativa de fascização do mundo capaz de conduzir pela terceira vez numa só geração a uma criminosa terceira guerra imperialista. Através de uma chamada guerra fria - termo que deixará tristemente célebre o povo que a inventou - friamente se preparam os meios científicos da morte de populações inteiras, de verdadeiras destruições em massa."

Estas são afirmações que mantêm hoje plena actualidade. No fim dessa mesma conferência, contrariando as imposições políticas do governador civil de Lisboa ao permitir a sessão, leu uma moção recebida na mesa que exigia a imediata libertação do professor Ruy Luís Gomes e dos democratas presos com ele. E afirmou que, como presidente dessa assembleia, o fizera porque queria manter a sua honra e dignidade. No dia seguinte recebeu de Maria Lamas uma carta emocionada em que esta afirmava : "...Considero histórica a sessão de ontem. A sua extraordinária coragem moral foi a melhor e maior homenagem que era possível prestar à memória do Professor Bento Caraça. (...) Não me surpreendeu a sua decisão e nobre altivez, pois de há muito admiro a sua personalidade, a sua inteligência e firmeza. Mas o que se passou ontem, na modesta sala da Sociedade Instrução e Beneficência José Estevão, foi qualquer coisa excepcional e inesquecível."

Também para nós, hoje, esta é uma grande lição, pois na luta que travamos, não só contra o inimigo principal, que é o capitalismo e o imperialismo, contra o governo, seu lacaio, mas também dentro das nossas próprias fileiras, é indispensável manter a coragem de afirmar com firmeza as nossas posições, mesmo quando discordantes, pois a unidade de combate só se consegue com a discussão franca e livre dos problemas, que promova a unidade de pensamento indispensável à unidade consciente da acção para a vitória dos nossos ideais.

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Intervenção de Margarida Aboim Inglez

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez  - 8 de Março de 2013

 

Cabe-me a tarefa de dizer algumas palavras em nome da família de Maria Isabel Aboim Inglez.

A minha avó Maria Isabel Aboim Inglez casa-se com 20 anos com Carlos Lopes Aboim Inglez, engenheiro no sector petrolífero, cujo pai fora ministro da República e que, enquanto republicano, fora perseguido pelo regime fascista. Ambos democratas, a sua casa torna-se um ponto de encontro de personalidades como Bento de Jesus Caraça, Dias Amado e muitos outros. Quando o meu avô adoece com um cancro a minha avó decide, já com cinco filhos, tirar o Curso de Letras. Fica viúva com 40 anos e tem de trabalhar muito para criar os seus 5 filhos e conseguir sobreviver, tanto mais que era perseguida por não ser católica e ser antifascista. Montou um colégio - o Colégio Fernão de Mgalhães, onde foi professora. Lecionou também na Faculdade de Letras, ainda deu aulas de sociologia na Escola de Enfermagem da Rockfeller no IPO, e quando foi proibida de lecionar pela ditadura fascista, aceita um convite para ir dar aulas no Brasil. Nessa altura não a autorizam a ir para o Brasil e retiram-lhe o passaporte. Monta então um atelier de costura e depois viverá até falecer dando aulas particulares. Inicia a sua actividade política com o MUD, em 1947.

É uma tarefa difícil falar sobre a minha avó porque, por um lado, se trata de uma família numerosa: a sua primeira filha, também ela Maria Isabel (já falecida) viveu com ela até à sua morte, Maria Luísa (aqui presente), Maria Margarida, Carlos e António (ambos falecidos), que criou e amou com ternura imensa, sempre disponível para os ajudar e ensinar - porque a sua vocação para o ensino a levou a ser simultaneamente professora e mãe - e por estar sempre presente (mesmo quando ausente fisicamente) quando dela necessitassem. Porque também foi irmã e tia e também deu aulas a alguns dos seus sobrinhos e porque foi também avó de nove netos, dos quais a sua curta vida apenas lhe permitiu conhecer cinco. Porque, com a coragem de lutadora que foi em toda a sua vida, enviuvando cedo e enfrentando enormes dificuldades já aqui assinaladas, incluindo financeiras, cria e acompanha de perto a vida dos seus filhos.

E porque, por outro lado, não é fácil exprimir com rigor toda a dimensão da importância que a sua figura, a sua personalidade invulgar, a sua cultura integralmente humanista e a sua actividade cívica tiveram para os seus familiares, tanto pelo exemplo como pela repercussão em toda a família das perseguições de que foi alvo. A sua firmeza de carácter e a sua tenacidade, os ideais de antifascista e de lutadora pela liberdade e democracia que abraçou, como disse o meu Pai "a sua postura (...) toda a sua atitude e comportamentos morais, as perseguições que lhe moveram, incluindo as prisões, tiveram uma influência enorme na sua família". Também os seus filhos foram perseguidos, por serem seus filhos e porque de uma ou outra forma, seguindo o seu exemplo, também eles participaram - de forma diferenciada, é certo - na luta antifascista, na luta pela liberdade e democracia no nosso país.

Duas das suas três filhas (a Maria Luísa e a Margarida) foram alvo de perseguições: a primeira foi proibida de lecionar, a segunda foi expulsa da Função Pública pelo regime fascista e apenas foi reintegrada após o 25 de Abril. Noutro plano, e pouco tempo após ter enviuvado, enfrenta ainda a grave doença que o seu filho mais novo, António, contrai ainda adolescente. Doença que irá implicar uma hospitalização muito prolongada, que acompanha dedicadamente sem que, por momento algum, descure os outros filhos também eles sofrendo com a doença do irmão.

Segue com grande coragem e defende a actividade política do seu filho Carlos, que adere ao PCP em 1946, passa um período de semi-legalidade, e "mergulha" definitivamente na clandestinidade no início dos anos 50. Quando o meu Pai é preso pela última vez, em Junho de 1959, no dia seguinte a nossa casa é assaltada pois ela já tinha sido detectada pela PIDE a minha mãe Maria Adelaide Dias Coelho Aboim Inglez e eu, ainda não tinha cinco anos, fomos presas, levadas para a Sede da PIDE na António Maria Cardoso (hoje um condomínio de luxo) e depois para Caxias.

Para além da permanente exigência da minha mãe de me entregar à família, o que consegue cerca de uma semana depois da prisão, é a minha Avó quem se dirige à visita em Caxias para eu lhe ser entregue. Viverei com ela e a minha Tia Isabel até 1962. Desses poucos anos recordo a viagem de Caxias até ao Estoril, onde vivia, no seu "2 cavalos" - que viríamos a chamar de "tio Pantufa" (os netos mais velhos que a conheceram), da forma terna como me "conquistou", como seguia a escola que passei a frequentar e os trabalhos de casa, mas também as conversas e brincadeiras que tantas e tantas vezes tínhamos. Após a libertação da minha mãe, um ano e meio depois também ela, a minha mãe, vem viver para casa da Avó.

Mãe solidária, acompanha e intervém activamente nos processos que a PIDE move ao seu filho Carlos - meu Pai, discutindo com ele e com os seus advogados a defesa, redigindo numerosas cartas e petições, nas diversas vezes em que é presente aos tribunais fascistas. A sua presença nas visitas na prisão de Peniche marcou uma geração de familiares dos presos, incluindo os filhos - crianças ou jovens -, porque não as assumia apenas como visita a um familiar, mas como ocasião de dar um exemplo de firmeza moral, de coragem cívica e de dignidade no trato com o aparelho prisional.

Por tudo isto é com inteira verdade que há bem poucos dias, netos que a não conheceram, diziam que a Avó - Maria Isabel - continuava presente nas nossas vidas.

Foi uma mulher excepcional cuja craveira intelectual e invulgar personalidade nos colocam perante uma questão ainda actual: a de que, entre os enormes danos que o fascismo provocou ao país, a marginalização e a perseguição a tão grande número das suas melhores figuras de intelectuais não estará certamente entre os menores.

Saibamos nós ser continuadores dos seus valores políticos, da sua firmeza perante os inimigos e da sua abertura perante as diferentes correntes antifascistas, dos valores éticos, morais, e culturais, dos valores da liberdade, da democracia porque se bateu em toda a sua vida. Será, certamente essa a melhor homenagem que lhe poderemos prestar projectando-os para o futuro, para um Portugal verdadeiramente livre e democrático.

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Intervenção de Filipe Diniz na sessão de homenangem a Fernando Lopes Graça
no dia 14 de Dezembro de 2012, em Lisboa, promovida pela URAP em parceria com a Biblioteca-Museu República e Resistência
no âmbito do ciclo Rostos da Resistência

 

«Quando em 2006 celebrámos o centenário do seu nascimento muitos de nós partilhávamos uma preocupação: embora Lopes-Graça fosse já indiscutivelmente reconhecido como uma das figuras maiores do século XX, existia ao mesmo tempo a consciência de que a obra, a vida, o exemplo cívico e político de Fernando Lopes-Graça estavam ainda longe de ser inteiramente conhecidos em toda a sua enorme riqueza e extensão.

As comemorações de 2006 fizeram muito para ampliar esse conhecimento. Mas todas as oportunidades que tenhamos de evocar a sua figura exemplar, como esta que a URAP hoje proporciona, podem ainda acrescentar algum elemento que ajude a compreender um pouco mais não apenas a sua obra, o que talvez não seja o mais apropriado a esta iniciativa, mas a sua invulgar e permanente presença na resistência e na luta dos trabalhadores e do povo português, o facto de o sabermos sempre, como diz o poema, caminhando ao nosso lado.

Lopes-Graça é o músico e compositor de génio. É o escritor notável. É o crítico e ensaísta culto e brilhante. É o resistente antifascista coerente e vertical. É o militante e organizador de um largo campo de iniciativa cultural democrática. É o investigador, defensor e recriador do património cultural popular. É o intransigente adversário de todas as formas de conservadorismo, o intransigente criador e divulgador voltado para o futuro, cujos melhores traços identifica na inteligência, na criatividade e na energia popular e em todos aqueles que nela se saibam inserir.
É o homem excepcional cujas opções estéticas e cujos valores éticos partilham uma raiz comum, como exprime em certa ocasião, falando das suas harmonizações de canções populares portuguesas:
«que retirei eu do roubo das canções? Eu vo-lo confesso. Revelaram-me elas melhor a alma do povo português, ensinaram-me a conhecê-lo mais intimamente, ajudaram-me a procurar uma mais funda identificação com ele e eu considero isto um benefício muito importante para um artista, para um músico, que deseja e se esforça por que a sua arte, mais do que uma aventura ou uma con­fissão pessoal, seja um meio de comunicação, melhor, um meio de comunhão com o povo a que pertence.»
Tudo nesta afirmação é revelador: o respeito e a busca de identificação com a criação popular (um tesouro, na sua expressão); a intenção, como afirmará no final desse texto, de devolver com juro o que antes "roubara", ou seja, de restituir ao povo, enriquecido por um trabalho artístico pessoal erudito e elaborado o material musical inicial, que respeita mas que não reproduz, antes complementa e valoriza num plano diferente; e sobretudo o desejo de inserir a criação individual na realidade comum, encontrando eco no coração e no espírito dos seus irmãos de raça, única forma de encontrar eco no coração e no espírito dos seus irmãos de outras raças.

A obra de Fernando Lopes-Graça, enquanto compositor, musicólogo, pianista, maestro, professor, investigador, teórico, crítico de arte, marcou impressiva e profundamente o nosso século XX. Mas é indispensável sublinhar um traço fundamental nessa obra. Numa personalidade como a de Fernando Lopes-Graça a energia criadora está indissoluvelmente ligada à sua visão do mundo e à sua opção política e ideológica: desde as Canções Regionais às Heróicas, a obras como Em Louvor da Paz ou o Requiem para as vítimas do fascismo em Portugal, o artista criador e o combatente pela liberdade, pela paz, pelo progresso são um só, e não poderiam sê-lo de outra forma.
Um dos aspectos mais admiráveis e exemplares na personalidade de Fernando Lopes-Graça é certamente a firmeza e a coerência das suas convicções e do seu carácter, dos seus princípios, do conjunto da sua criação intelectual e artística, da sua intervenção cívica e política. Lopes-Graça é um exemplo maior de intelectual comunista. Do intelectual livre que, por o ser em todas as circunstâncias, toma como sua a causa da emancipação e da liberdade do seu povo, a causa da luta contra o obscurantismo e a opressão, da luta contra a exploração - a causa do socialismo e do comunismo.

Membro do PCP desde 1948, a sua adesão ao Partido não é mais do que a sequência natural da intervenção de alguém que, desde a juventude - desde que, tinha ele 19 anos, ocorreu o golpe militar do 28 de Maio que abriu caminho ao regime fascista - assumiu uma corajosa e intransigente opção democrática, antifascista, progressista. À data da sua adesão ao Partido, Fernando Lopes-Graça sofrera já as perseguições políticas, a prisão, o desterro, o exílio. O fascismo vedara-lhe o acesso a cargos públicos - e mesmo quando lhe foi proposto dirigir os Serviços de Música da então Emissora Nacional, não chegou a tomar posse do cargo porque se recusou a assinar a declaração de «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas» que o fascismo exigia aos funcionários públicos. O regime fascista vigiava e perseguia Fernando Lopes-Graça com o mesmo implacável ódio com que perseguia os resistentes clandestinos. Vigiava-lhe as intervenções, os passos, a casa, as pessoas que contactava e o contactavam. As dezenas e dezenas de folhas do seu processo nos arquivos da PIDE - com relatórios de informadores que vigiavam o seu dia-a-dia - constituem um testemunho eloquente do temor que suscitava ao fascismo a sua personalidade prestigiada, firme e intransigente. Como os melhores de entre nós, Fernando Lopes-Graça foi um resistente sem quebras, um combatente de todos os momentos: desse tempo sombrio, opressivo e repressivo do fascismo; do tempo novo, luminoso e empolgante da revolução de Abril, com as suas conquistas económicas, sociais, políticas, culturais, civilizacionais; do tempo manchado de sombras e de sinais do passado que a política de direita, a política da contra-revolução, desde há mais de trinta anos, vem fazendo pesar sobre os trabalhadores, o povo e o País.

Toda a vida e toda a acção de Fernando Lopes-Graça são inseparáveis do núcleo fundamental das suas convicções, da sua inteligência e do seu génio criador voltado para o povo e para o futuro. As suas palavras, mesmo quando fala apenas de música ou de cultura são as de um revolucionário, como quando afirma: "uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente, naquilo que ele tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista para o futuro".

É nessa perspectiva e nessa visão revolucionárias que se inserem as suas Canções Regionais Portuguesas, recriadas através de geniais arranjos e harmonizações - a partir do notável trabalho de recolha levado a cabo por Michel Giacometti. E, sobretudo, aquelas que, segundo ele, mais se identificavam com o povo, com os seus anseios de liberdade, de amor, de paz, de progresso, e que, porque portadoras da imensa sabedoria de vida do povo, transportavam consigo a capacidade de luta e de resistência. Canções que o Coro cantava por todo o País e que, pouco a pouco, passaram a ser cantadas por operários, camponeses, estudantes e intelectuais antifascistas - pelo povo.

E as suas Canções Heróicas - cuja beleza empolgante se funde com a beleza da poesia de combate dos grandes poetas da resistência e da luta pela liberdade - são tão profundamente parte integrante da resistência ao fascismo como cada luta de trabalhadores, cada praça de jorna, cada luta estudantil, cada greve operária. Proibidas pelo fascismo, mas cantadas por todo o País pelo Coro da Academia dos Amadores de Música - para todos, simplesmente o Coro do Lopes-Graça, como o tinha sido antes o Coro do Grupo Dramático Lisbonense - as Canções Heróicas foram um estimulo e um incentivo à resistência, um grito de confiança e de esperança para os milhares e milhares de pessoas que as ouviam e, com o Coro, as cantavam. Mas foram mais, muito mais do que isso: foram, elas próprias, resistência. E quando o regime fascista as proibiu, o Coro foi substituído por um outro Coro - o dos milhares de vozes cantando essas canções em milhares de locais, em convívios do mais diverso tipo, em iniciativas de resistência ao regime fascista, no exílio, nas prisões de Caxias e de Peniche. Muitas vezes, depois das actuações do Coro, apenas autorizado a cantar as canções regionais portuguesas (e, mesmo essas, sujeitas a censura prévia e com pides e bufos a vigiarem os espectáculos) as Heróicas eram cantadas pela assistência ou, no final dos espectáculos, pelo Coro e pela assistência, já longe dos ouvidos dos esbirros fascistas.
Quando, com a acção dos militares revolucionários culminando décadas de luta da classe operária, dos trabalhadores, dos intelectuais, das mulheres, dos jovens, fizemos Abril, quando conquistámos a liberdade, alcançámos uma primeira grande etapa do caminho que há-de conduzir ao fim da estrada. E o Coro do Lopes-Graça cantou as Heróicas enquanto desfilava nesse momento maior da nossa vida colectiva que foi o primeiro 1º de Maio; e voltou a cantá-las, num espectáculo memorável, realizado no Coliseu dos Recreios precisamente um mês depois do Dia da Liberdade, em 25 de Maio de 1974, quando o povo, nas ruas, nas fábricas, nos campos, nos escritórios, nas escolas, dava os primeiros grandes passos na caminhada do processo revolucionário; e cantou-as, ainda, em comícios e festas do Partido, e nas Unidades Colectivas de Produção da Reforma Agrária, e em colectividades e salas de espectáculos por todo o País. Porque as Heróicas foram parte integrante da resistência que construiu Abril e, por isso mesmo, eram parte integrante do processo revolucionário e continuam, hoje, a integrar a nossa luta de todos os dias por uma ruptura democrática contra políticas que vêm novamente agravando o atraso, a dependência e subalternização do nosso país no contexto internacional, incluindo nos planos da cultura artística e científica.
Poucos artistas têm, como Lopes-Graça, em cada criação um acto de resistência. Que em Lopes-Graça é também resistência a qualquer submissão, a qualquer facilitação, a qualquer demagogia, a qualquer transigência de linguagem ou de ordem estética. É essa a atitude coerente com o profundo respeito que tem pelo seu povo: o desejo de que se aproprie das obras certamente belas, mas complexas e exigentes que realiza, obras que abram caminho, não obras que sigam trilhos já gastos.
Lopes-Graça, como Mayakovski, sabe que o mundo novo exige novas formas e expressões. Sabe que o que torna mais ou menos fácil a compreensão da obra de arte não é a sua maior ou menor complexidade ou novidade formal, mas os elos que saiba estabelecer com a realidade comum (na sua expressão já citada).
Um outro grande revolucionário, Amílcar Cabral, com quem Lopes-Graça certamente se cruzou em iniciativas dos tempos do MUD, destacava quatro tipos de resistência: resistência política, resistência económica, resistência cultural, resistência armada. Em 1969, numa altura em que o seu partido, o PAIGC, conduzia a luta armada contra o colonialismo português, este dirigente colocava a resistência cultural no mesmo plano da luta armada, abordando-a com cuidadoso detalhe: a herança voltada para o futuro, as questões de mentalidade, a questão das limitações das línguas nativas, a acção organizada como forma específica de cultura, a cultura como elemento essencial de transformação e progresso. E fala da música em termos que Lopes-Graça não enjeitaria: do seu enraizamento em realidades comuns que diferentes grupos humanos podem partilhar em lugares diferentes: realidades sociais, condições geográficas e outras. Compara os cantos dos balantas com os cantares alentejanos: ambos nascem da planície. Diz o que Lopes-Graça exprime de uma outra forma quando fala do eco no coração e no espírito dos seus irmãos de raça, única forma de encontrar eco no coração e no espírito dos seus irmãos de outras raças.
Realidade comum que é feita de uma raiz humana e popular longamente construída e recriada, ao mesmo tempo que do melhor e mais avançado que a inteligência, o sonho e a sensibilidade humanas tenham sabido criar. E que se torna, desse modo, universal.

A obra de Lopes-Graça é uma construção riquíssima e complexa, que importa conhecer, amar e partilhar na sua totalidade. Como toda a obra de um grande artista, é uma obra simultaneamente tecida de múltiplos laços com o seu tempo histórico, e com o tempo que há-de vir. Muito poucos compositores haverá, em toda a história da música, cuja criação se tenha tornado tão intimamente tecida das lutas do seu povo. De muito poucos se poderá dizer, como do seu Requiem em memória das vítimas do fascismo em Portugal, que na sua beleza intensa, dolorosa e impressionante resume a heróica trajectória da resistência antifascista.
De muito poucos se poderá dizer, como das suas Canções Heróicas, que desempenharam e continuam a desempenhar um papel semelhante àquele que Lénine atribuía à imprensa revolucionária: o de serem um organizador colectivo, o de apontarem um rumo e lhe marcarem um ritmo.
Os dias de hoje são também dias de dura resistência. Não é assim de admirar que, de novo, e com toda a energia, a música de Lopes-Graça percorra as ruas e preencha as praças deste país, que novas gerações de novo a façam sua. Elas fazem parte de uma longa e heróica marcha que, por muitas que sejam as dificuldades que tenha de superar, caminha em direcção ao futuro. Não é desajustado voltar a associar Amílcar Cabral ao seu nome. Porque a ofensiva que hoje atinge o nosso país golpeia profundamente a soberania nacional, e as grandes potências europeias e o imperialismo conduzem uma política de dominação que em muitos aspectos assume contornos de recolonização, e nomeadamente de colonização cultural. A luta de resistência dos dias de hoje trava-se certamente em condições bem diferentes da situação de extrema repressão que Lopes-Graça e os outros resistentes anti-fascistas enfrentaram. Mas bate-se contra condições, também no que diz respeito ao atraso cultural e da democratização da cultura, são igualmente de grande gravidade. Portugal tem a 3ª mais baixa taxa de emprego em áreas culturais da UE27, só ficando à frente da Roménia e da Turquia, mas tem em compensação 7ª mais alta taxa de empregos precários e a mais alta taxa de empregos temporários nessas áreas. 17% dos trabalhadores em áreas culturais trabalham sem horário e sem salário.
O 25 de Abril proporcionou um amplo acesso a bens e actividades culturais, anteriormente reservados a elites. Mas em 2007 70% dos portugueses não assistiram a uma única sessão de cinema, mais de 50% não assistiram a um espectáculo ao vivo, perto de 70% não visitaram qualquer espaço cultural, cerca de 60% não leram um livro. E não é porque o não quisessem, é porque a grande maioria não tinha condições (geográficas e económicas) de a eles terem acesso. Entre 2005 e 2009 o preço dos livros aumentou 12%, o dos serviços culturais em geral 10%. E com o aumento do IVA nos espectáculos decidida pelo governo PSD/CDS a situação ainda piorou.
E com a degradação da situação social e económica desde então, e as alterações da legislação laboral, nomeadamente a autêntica destruição da noção de horário de trabalho e a anulação do direito ao descanso e ao lazer, a situação hoje é ainda mais grave.

A reivindicação democrática do direito à Cultura é historicamente inseparável da reivindicação dos trabalhadores da limitação da jornada de trabalho, da reivindicação histórica dos "3 oitos". Não se trata só do direito de ir ao concerto, ao museu, à biblioteca, à exposição, à ópera, ao bailado. É o direito de experimentar o potencial criador de cada um, o direito de, com a cultura, alargar horizontes, compreender o mundo e a sociedade, e agir para a transformar.

É neste quadro de resistência e combate dos dias de hoje que o exemplo e a presença de Lopes-Graça tão vivamente nos acompanha, que o mestre acrescenta vigor à nossa luta. Lopes-Graça, intelectual, músico, resistente, comunista, caminha ao nosso lado no caminho da história. »

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Fernando Lopes Graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906. Começou a trabalhar, aos 14 anos, como pianista no Cine-Teatro de Tomar. Em 1923, frequentou o Curso Superior do Conservatório de Lisboa, tendo como professores, entre outros, o maior pianista português: Mestre Vianna da Motta (antigo aluno de Liszt).


Em 1928, frequentou também o curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, que viria a abandonar em 1931, em protesto contra a repressão a uma greve académica. Fundou em Tomar o semanário republicano "A Acção".


Em 1931, no dia em que concluiu, com a mais alta classificação, as provas de concurso para Professor de Solfejo e Piano do Conservatório Nacional, é preso pela polícia política, encerrado no Aljube e, a seguir, desterrado para Alpiarça.


Em 1934, concorreu a uma bolsa de estudo de música em Paris. Ganhou o concurso mas a decisão do Júri é anulada por ordem da polícia política.


Em Setembro de 1935 é de novo preso e enviado para o Forte de Caxias.


Em 1937 é libertado e partiu para França por conta própria, estudando Composição e Orquestração com Koechlin.


Em 1939 recusou a nacionalidade francesa, sendo forçado a regressar a Portugal.


Em 1940 é-lhe proposto dirigir os Serviços de Música da Emissora Nacional. Não chegou a tomar posse do cargo porque recusou assinar a declaração de "repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas" que, então, era exigida a todos os funcionários públicos.


Em 1945 integrou o Movimento de Unidade Democrática (MUD], do qual virá a ser dirigente. No âmbito das actividades do MUD, Fernando Lopes-Graça criou o Coro do Grupo Dramático Lisbonense, mais tarde Coro da Academia dos Amadores de Música. As Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas são cantadas por todo o país. Aderiu ao Partido Comunista Português.


Com o aumento da repressão, na década de 50, as orquestras nacionais são proibidas de interpretar obras de Fernando Lopes-Graça; os direitos de autor são-lhe roubados; é-lhe anulado o diploma de professor do ensino particular; é obrigado a abandonar a Academia dos Amadores de Música, à qual só regressa em 1972.


É autor de uma vasta obra literária sobre música portuguesa, mas maior ainda é a sua obra musical, da qual são assinaláveis os concertos para piano e orquestra, as inúmeras obras corais de inspiração folclórica nacional, o Requiem pelas Vítimas do Fascismo (1979), o concerto para violoncelo encomendado e estreado por Rostropovich, e a vastíssima obra para piano, nomeadamente as seis sonatas que constituem um marco na história da música pianística portuguesa do século XX.


Condecorações: Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (em 1981) e  Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (em 1987).

 

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Intervenção de Graciete Fernandes na homenagem a Luís Veiga Leitão,
a 15 de Dezembro de 2012, no Porto, por ocasião do centenário do seu nascimento, promovida pela URAP em parceria com a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e a UNICEPE – Cooperativa Livreira dos Estudantes do Porto.

 

«É para mim uma grande honra vir aqui falar, embora muito sucintamente, do poeta, do resistente antifascista, do amigo Luís Veiga Leitão. Conheci-o naqueles tempos dos anos 50-60 do século passado em que uma juventude revoltada e ansiosa se agrupava em torno de realizações culturais tais como o Teatro Experimental do Porto, o Cine Clube do Porto ,a Sociedade Editorial do Norte, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, a  Livraria e Galeria Divulgação, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz(encerrada em Janeiro de 1952, pela PIDE) e posteriormente a UNICEPE, fundada por estudantes, em 1963, já após fecho definitivo da SEN, organizações essas sempre na mira da PIDE, pois nelas se vislumbrava o fermento da luta contra a ditadura e o fascismo. E a cultura é perigosa. Pois obriga a pensar.


Essa foi também a época gloriosa do MUDJUVENIL onde se forjaram tantos resistentes ainda ativos, embora alguns, infelizmente,  já fora do nosso convívio.
Muitos companheiros envolvidos na luta acompanhavam essa juventude e eram um exemplo para todos. Embora eu não pertencesse ao MUDJUVENIL, conhecia muitos dos que o integravam e partilhava dos seus ideais.
E foi assim que conheci Veiga Leitão, homem e poeta com uma atividade política intensa de resistência e com uma personalidade afável, cheio de humor contagiante e sempre, sempre gerador de empatias.


Conheci-o e à sua mulher Maria Sofia na casa onde então habitavam com a família, da qual destaco, não desvalorizando os restantes, o seu sogro, Albano Freitas Monteiro, que era uma figura fascinante. Também resistente antifascista, também "hóspede" das prisões da PIDE, o seu porte magnífico inspirava a confiança na luta daqueles que consideram imprescindível um mundo de Paz e Justiça.
Mas, voltando a Luís Veiga Leitão, e para caraterizar a sua alegria de viver, recordo um dia em que, por acaso, nos encontramos no mesmo transporte coletivo e ele me disse, abraçando-me e sorrindo, "olha, hoje faço 50 anos". E já lá vão outros  50!!!
Era uma figura atraente e a imagem que dele muito frequentemente me aparece é a das suas idas à Livraria Leitura, já depois do 25 de ABRIL, com o seu cachecol branco esvoaçando (feito pela Maria Sofia) e o seu eterno sorriso.
Mas venho aqui também recordar um pouco do seu percurso político e da sua vida, sempre consequente, sempre intransigente, sempre em sintonia com os ideais socialistas.


Resumindo a sua biografia poderei dizer:
-Nasceu em 1912 a 27 de Maio, em Moimenta da Beira, filho de João de Almeida Leitão, comerciante e de Maria da Luz Veiga Leitão possuidora de dotes artísticos e boa conhecedora das línguas francesa e alemã.
-Já longe dos seus pais e, em Viseu, na década de 30,dedica-se ao Teatro e integra um Movimento para a criação de uma Universidade Livre em colaboração com o Dr. Hernâni Vasconcelos. Já em Coimbra , faz amizade com Joaquim Namorado.
-Em 1937 passa a trabalhar como escriturário na Federação dos Vinicultores da Região do Douro.
-Em 27 de abril de 1947 casa com Maria Sofia Mendonça Monteiro, funcionária dos CTT em Lamego, onde fixa residência.
-Em 1949 é demitido das suas funções por razões políticas, logo após idêntica demissão de sua mulher.
- Entretanto publica o seu primeiro livro, Latitude, e inicia funções de Delegado de Informação Médica . Acaba por ficar a residir no Porto.
-Em 1952 é preso pela PIDE e nasce o seu único filho, Luís António Mendonça Veiga Leitão, com ele ainda preso.
- Da sua obra literária não falarei, outros amigos mais competentes já o fizeram. Apenas quero referir que colaborou, entre outros, com Egipto Gonçalves, António Rebordão Navarro, Daniel Filipe e Papiniano Carlos, o escritor e resistente antifascista que recentemente nos deixou e a quem presto também a minha homenagem, na elaboração dos fascículos de poesia Notícias do Bloqueio, publicados no Porto entre 57 e 61.
- Entretanto viaja, escreve, desenha (grande desenhador ele também era) e em 196 7 radica-se no Brasil principalmente para evitar que seu filho seja chamado para a Guerra Colonial que ele e sua  mulher, grande lutadora pela Paz, repudiam veementemente.
-No Brasil continua a sua vida sempre ligada à arte e à literatura não esquecendo, no entanto, o seu ideal político.
- Faz breves visitas a Portugal e em 1974  aqui  permanece 6 meses  sendo ,então, sua mulher reintegrada nos CTT.
-Em 1976 regressa definitivamente a Portugal, continuando a escrever e a viajar. Um pormenor  interessante .  Ao visitar a URSS e junto ao lago Baikal, ao saberem da presença dele e sua mulher, como portugueses ,cantam-lhes Grândola, Vila Morena.
-Em 1987 morre subitamente no Brasil, a 9 de outubro, onde se tinha deslocado por convite do então Presidente da República José Sarney, a fim de realizar um ciclo de conferências sobre Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília onde, infelizmente, não chegaria a ir. E aqui posso também recordar e prestar homenagem  ao  grande Óscar Niemeyer.
Falta-me ainda falar um pouco mais do seu percurso político como resistente antifascista ativo e coerente, integrando as fileiras da única força política que conseguiu resistir à ditadura, na clandestinidade, organizando a luta dos trabalhadores, dos democratas, dos intelectuais, o PCP.


E assim passarei a incluir, resumidamente, alguns elementos da sua "ficha" na PIDE que constitui, por si, só um poderoso libelo contra o branqueamento do fascismo tão difundido nos dias de hoje.

-Em 30-03-1952 é preso para averiguações por crimes contra a segurança do Estado, dando entrada nas prisões privativas da Subdiretoria do Porto da PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português e de ter cedido a sua casa para reuniões da "Comissão Distrital do Porto dos Trabalhadores" do "Movimento Nacional Democrático", o que ele negou sistematicamente limitando-se a declarar "não admitir inquirições à sua vida particular".
-Em-02-04-1952 é transferido para a Diretoria de Lisboa da PIDE, onde deu entrada às 8h da manhã do dia 03-04, tendo recolhido, doente, à cadeia do Aljube.
-Em 22-04-1952 sua mulher Maria Sofia faz um requerimento ao Diretor da PIDE solicitando que o marido seja assistido pelo Dr. Pulido Valente, por se encontrar gravemente doente, e que lhe seja permitida uma visita diária de uma hora. Apenas lhe é concedida uma visita de três dias por semana, sempre na presença de um agente. O médico desvaloriza um pouco o seu estado deficitário.
-Em 29-4-1952 baixa à enfermaria da Cadeia do Aljube.
-Em 07-05-1952 tem alta dessa enfermaria e é logo transferido para a prisão de Caxias.
-Em 16-06-1952 é solicitada a prorrogação da prisão preventiva por mais 45 dias em virtude da morosidade das investigações pelo facto de, segundo a PIDE, os detidos se eximirem às  suas responsabilidades dentro da organização particularmente criminosa a que pertencem.
-Em 30-06-1952 é emitido um despacho de punição proibindo visitas por 30 dias por manifestações de indisciplina.
-Em 03-07-1952 é punido com mais 30 dias sem receber visitas.
-Em 26-07-1952 é transferido para a Subdiretoria do Porto.
-Em 29-07-1952 novo pedido de prorrogação  de  prisão preventiva por mais 45 dias, pelas razões já referidas.
-Em 06-09-1952 é posto à disposição do Tribunal Criminal do Porto.
-Em 09-09-1952 é solto por mandado do 1º Juízo Criminal do Porto, mediante caução de 20.000 escudos.
-Finalmente é julgado a 22-12-1953 e absolvido por ausência de provas, juntamente com outros companheiros.
- Mas a vigilância da Polícia era constante.
- Alguns exemplos dessa vigilância.
-Em 29-08-1953 é acusado de apoiar "organizações comunistas ou pró comunistas", diziam, tais como as já anteriormente referidas.
-Em 11-12-1953 subscreve abaixo assinado pela extinção da Censura em Portugal.
- Subscreve também o apelo "Pela Paz entre as Nações", sendo de salientar a colaboração, com a PIDE ,dos Administradores dos CTT .
-Em 21-12-1953 é acusado de, juntamente com outros destacados antifascistas entre eles Albano Freitas Monteiro, pai de Maria Sofia, ter assinado dois telegramas dirigidos ao Presidente do Conselho, protestando contra a agressão ao Dr. Humberto Lopes no decorrer de interrogatórios a que foi submetido na PIDE. Em 26-12 é intimado a comparecer na Subdiretoria do Porto da PIDE, no dia 28 seguinte, para prestar declarações sobre o assunto.
-Em 14-02-1954 os Serviços de Censura impedem que o jornal "República" publique uma notícia sob o título "Uma mensagem de intelectuais portugueses ao Secretário Geral das Nações Unidas, também subscrita por Veiga Leitão, apoiando as negociações para eliminação das novas armas de extermínio maciço.  
                                                                 ....

E, durante todos os meses e anos que se seguiram, Luís Veiga Leitão sempre esteve sob alçada da PIDE , sendo fastidioso enumerar, embora não menos importante, tantas ações em que participou e denúncias de que foi alvo.


No entanto gostava ainda de referir:
-Em 15-06-1965 subscreve um artigo para o jornal "República", que a censura cortou, sobre a necessidade de abrir um inquérito ao assassinato do General Humberto Delgado.
-Em 01-02-1967 é um dos signatários de um violento protesto enviado ao Presidente da República contra atos de violência exercidos sobre Luís Stau Monteiro a pretexto de, nos seus escritos, ultrajar e injuriar o Exército Português e os combatentes da Guerra no Ultramar.
-Em abril de 1968 subscreve um abaixo assinado dos democratas portugueses exilados no Brasil, dirigido ao Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, solicitando que não fossem ratificados os acordos culturais entre os dois países, porque o governo fascista português não garantia a liberdade de expressão nem o desenvolvimento de políticas culturais.
-Em outubro, novembro de 1968 subscreve um manifesto à opinião pública brasileira, denunciando "O salazarismo sem Salazar" e o falso liberalismo de Marcelo Caetano, referindo a repressão pela PIDE e GNR das manifestações de 5 de outubro, pela democracia e contra a guerra colonial.
-Em outubro de 1971 subscreve um documento de que o Professor Ruy Luís Gomes é o primeiro subscritor, solicitando sanções contra o governo de Caetano, já pedidas à xxvi Assembleia da ONU, e contra a guerra colonial.

 

Por este pequeno resumo da atividade de resistente antifascista , quer pela sua escrita, quer pala sua ação, quer em Portugal, quer no Brasil, consideramos que esta homenagem,   a VEIGA LEITÃO , um resistente em tempos difíceis, é não só muito justa como também um incentivo à continuação da luta pelo Mundo por ele sonhado.


E, só para terminar, um pequeno poema seu que, quanto a mim, define bem a sua dimensão de poeta resistente e militante.

 

SER

Vir à luz em partos duros
Ser erva rasgando a pele
granítica dos muros

Viver em grades   desterros
E ser um raio de sol
Por entre os ferros

E quando tudo se for
Morrer pela madrugada
Com a raiz de uma flor
Na mão cerrada.

»


Apoios à elaboração deste texto:

1-Luís Veiga Leitão
    Poesia Completa
Organização de Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro
 
 2-Notas extraídas da sua "ficha" na PIDE

3-Livrarias & Livreiros
1945-1994
Histórias Portuenses
Carlos Porto

4-Conversa com Maria Sofia e Luís António.

5- Minhas recordações.

6- Algumas informações fornecidas por Teresa Lopes e F. Fernandes.

                                                  

Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes



 

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