Antifascistas

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Com Mário Sacramento ao nosso lado

Promovendo esta sessão em memória de Mário Sacramento, a URAP, quis prestar homenagem a um dos combatentes contra a ditadura fascista que mais contribuiu para que fosse livre o terreno que hoje pisamos.

Nós, como resistentes e antifascistas portugueses, temos bem presente na nossa memória da luta colectiva o papel que Mário Sacramento teve como impulsionador e organizador dos Congressos de Aveiro, que abriram para a luta antifascista largos horizontes de unidade e apontaram com audácia objectivos políticos que vieram a florescer nos cravos de Abril.

Ao prestar esta homenagem, não podemos esquecer a perseguição e os sofrimentos inflingidos a Mário Sacramento, pelas suas actividades em prol da Democracia.

Preso por quatro vezes, a primeira quando tinha 18 anos, Sacramento foi daqueles antifascistas que não cedeu, não quebrou, não pactuou, defendendo também assim o valor das suas convicções.

«Nasci e vivi num mundo de inferno - escreveu Sacramento pouco antes da sua morte. Há dezenas de anos que sofro na minha carne e no meu espírito o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem - físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, mesmo que as não tivesse sofrido,

o meu dever era combatê-lo».

Para isso lutou, para isso viveu. 

A vida não permitiu que ele estivesse presente no 3º Congresso de Aveiro, em que a Oposição Democrática, um ano antes do derrubamento da ditadura, apontou traços essenciais de um programa para  o estabelecimento de um regime democrático em Portugal.

Mas também nesse Congresso a sua memória esteve presente, quando os participantes, desafiando as interdições do governo civil e das polícias da ditadura, se manifestaram em romagem ao túmulo de Mário Sacramento, numa das iniciativas que comprovaram que ali, nesse Congresso de Aveiro, a luta pela Democracia estava a entrar numa nova e mais alta fase contra o regime fascista.

Essa jornada, como dizia Mário Sacramento, «lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!».

O legado de Sacramento não terminou com o derrubamento da ditadura fascista.

Nós, na URAP, consideramos que na nossa sociedade ainda hoje se manifestam as marcas deixadas pelo salazarismo de um profundo atraso como rastos inevitáveis de um passado que bem merecia estar já mais distanciado da nossa realidade.

Está ainda por fazer a exacta estatística de crimes de morte cometidos pela PIDE. Como também dos que foram assassinados com a tortura refinada evitando deixar marca. Pela morte lenta no Tarrafal e nos longos anos de cárcere.

Haverá quem diga que o assunto não é actual, já passou à História.

Mas só uma grave ou leviana incompreensão da História pode levar à convicção de que o 25 de Abril pôs um fim definitivo a qualquer regime autoritário ou ditatorial.

Por isso não pode deixar de nos alertar a insidiosa campanha de branqueamento da ditadura fascista (agora hipocritamente chamada «antigo regime») e o falseamento da memória dos que lutaram para que Portugal fosse uma democracia.

Não podemos esquecer que os crimes do fascismo não se deveram apenas à crueldade dos que os praticaram. Foram parte integrante de uma política que só pelo terror podia ser imposta ao povo português.

O antifascismo mantém-se como exigência actual.

Mais ainda porque há hoje em Portugal uma nova geração que não conheceu, felizmente, o peso da repressão política, das prisões e torturas, da censura, da miséria, da emigração massiva e das guerras do fascismo. Não viveu, felizmente, a abominação das concepções da ideologia fascista que a versão salazarista de fascismo quis impor ao povo português, matraqueando-a nas escolas, martelando-a na comunicação social amordaçada.

Não podemos deixar que o apagamento do que foi a ditadura, e a reabilitação dos seus responsáveis abram caminho ao ressurgimento de ideologias fascistas e de práticas políticas nelas inspiradas, a par das campanhas em curso de desvalorização e degradação da democracia.

Fascismo, nunca mais?

Não podemos entender isso como garantia de que «o fascismo não voltará».

Não voltará certamente nas formas que assumiu nos anos 20/30 do século passado. A sociedade não é a mesma, as estruturas são diferentes.

Mas o fascismo não é um fenómeno histórico de uma determinada conjuntura.

Tem carácter universal, com raízes sociais e económicas que aparecem como resposta desesperada numa economia em queda.

Foi num cenário assim que se preparou e desencadeou no século XX o assalto do nazi-fascismo ao poder, com expressões próprias nos vários países da Europa. Era a época em que Salazar se fazia fotografar com o retrato de Mussolini na sua mesa de trabalho.

Mas no mundo de hoje encontramos traços igualmente inquietantes.

Estamos num mundo adverso, às vezes sob formas dissimuladas, à liberdade, ao progresso, ao bem-estar. As esperanças de futuro andam minadas por ameaças que agravam à escala planetária factores de crise económica e social.

A instabilidade e o medo à instabilidade, a insegurança laboral, a polarização da pobreza e da riqueza, a crescente diferença planetária na distribuição dos recursos e rendimentos, a deslocação de milhões de pessoas a quem são negadas condições de sobrevivência, uma política de guerras e de dominação, criam angustiantes factores de desestabilização.

A violência da exploração, a injustiça social, corroem a democracia, retiram-lhe os indispensáveis apoios, porque essa democracia não é acompanhada por uma democracia social e económica, dando-se prioridade à concentração de lucro, com as consequências e medidas a que isso obriga.

Desacreditam-se instâncias políticas, conceitos ideológicos e valores que estavam credibilizados com a vitória da democracia.

Mário Sacramento inscreveu a sua vida na luta milenária que a humanidade trava por um mundo mais justo.

Nas palavras do seu testamento político deixou-nos um apelo que é também um honroso encargo, dizendo: «Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!»

Na fase crucial que a civilização humana atravessou no século passado, os antifascistas foram a grande força de contenção de um catastrófico retrocesso histórico. Eles ousaram lutar pela democracia e o respeito pelos direitos do ser humano.

Dizia Mário Sacramento:

«O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros».

O branqueamento do que foi o fascismo, em Portugal e no mundo, apaga, numa falsificação da História, a resistência dos povos e dos que como Sacramento, não cederam, não capitularam, e se uniram para barrar caminho ao fascismo. O de Salazar, como o de Franco, Hifler e Mussolini.

Por isso também estamos hoje aqui a prestar homenagem a Mário Sacramento.

Mas render homenagem à vida e à luta de Mário de Sacramento não significa apenas um exercício de memória, o cumprimento de um ritual ou o assinalar de uma efeméride.

Estamos aqui, também, para defender a democracia dos riscos que a podem ameaçar.

Os perigos de regimes a ela opostos, como o fascismo salazarista, não passaram a figuras do museu da História: permanecem e devem fazer parte da atenção e do conteúdo da luta por uma democracia que se vê ameaçada.

Entre os perigos que a ameaçam perigos, o principal consiste nas várias tentativas de seu desvirtuamento, utilizando muitas vezes para o seu esvaziamento a margem de acção conferido pelas próprias conquistas democráticas, como o direito de voto, mas sempre com uma manipulação sociológica da opinião pública que reserva o exercício do poder a círculos ultra-restritos e combinados para nele se perpetuarem.

Nesta luta central pela defesa da democracia inclui-se como objectivo essencial o seu aprofundamento e o seu reforço, com utilização constante de instrumentos de acção de denúncia e fiscalização dos perigos anti-democráticos.

Mas também porque está no centro de muitas outras lutas importantes, de cujo resultado depende o nosso futuro.

A luta pela Democracia vale por si própria. Mas também porque está no centro de outras lutas vitais, de cujo resultado depende o nosso futuro.

E nessa luta Mário Sacramento continua ao nosso lado.

 

27 de Março de 2009

Aurélio Santos

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Texto de Jorge Sarabando

imgem_mario_sacramentoFoi num tempo cheio de sombras, medos e espantos, onde irrompem, por vezes, clarões de esperança e indignação, que Mário Sacramento, há quarenta anos, nos deixou.

Hoje sabemos que a ditadura se aproximava do fim. Faltava pouco, cinco anos apenas, para a alvorada libertadora de Abril e tudo agora nos parece mais fácil e óbvio, de todo evidente e simples na linearidade de quem percorre uma recta final.

Mas, então, as cadeias de Peniche, Caxias, Tarrafal, estavam cheias de presos políticos, delas nos chegavam ecos angustiados de torturas e sofrimentos; das guerras de África havia as notícias oficiosas de operações triunfantes, e as verdadeiras, as dos relatos de combates e do inferno das minas e das emboscadas, e do sangue derramado; a censura controlava toda a informação e a actividade cultural, cirurgicamente, por vezes cinicamente, mas com grande eficácia, e cada iniciativa pública - um simples encontro de jovens, como então se realizavam entre mil cuidados, um acto comemorativo, como o do 31 de Janeiro ou do 5 de Outubro, obrigavam a requerimentos, explicações detalhadas às autoridades, com garantias de que a ordem, a sacrossanta ordem, não seria violada ou subvertida por qualquer palavra, até por uma simples canção.

Havia, ainda, os períodos eleitorais, em que a Oposição sempre participava, para aproveitar os escassos dias de restritíssima abertura em que era possível falar directamente com o povo.

Havia as lutas dos trabalhadores, greves corajosas e sempre duramente reprimidas. E, de tempos a tempos, novas levas de presos, intimidações, perseguições.

Era o tempo da emigração «a salto», em busca de trabalho e de melhores condições de vida, da fuga de milhares de jovens ao cumprimento do serviço militar.

O poder político era uma ditadura brutal, mas de falinhas mansas, ao serviço do grande capital monopolista e latifundiário.

Parece-nos já distante e mesmo absurdo, mas Portugal era uma prisão para quem amava a liberdade, para quem buscava, como nos versos de Sofia de Mello Breyner, «um país liberto, uma vida limpa e um tempo justo».

Foi, então, num tempo assim que Mário viveu e lutou, e nos deixou, num dia de Março, já tão perto de Abril.

Se fosse possível voltar atrás na fita do tempo, veríamos, em Aveiro, no centro da cidade, onde era o café Trianon, um homem sentado a uma mesa, rodeado de amigos, a mão suspensa no eterno cigarro, os olhos perscrutantes, a bonomia e a atenção que a todos devotava, e logo nele se revelava a capacidade de ouvir e o gosto de convencer sem vencer, a sua humaníssima solicitude para quem buscasse resposta a uma simples dúvida ou conforto para o sofrimento, o rigor e a convicção que empregava na defesa do que entendia justo e acertado, ou ainda aquelas súbitas exasperações para com o fascismo e os seus guardiões.

Médico estudioso e reconhecidamente competente, estimado pelo mais humilde dos seus doentes, intelectual que ensaiou os grandes debates de ideias da sua época, cidadão que empenhadamente participou em tantas e tantas lutas que, em Portugal, se travaram pela liberdade e dignificação do ser humano - assim era Mário Sacramento.

Corrigindo Montaigne, escrevia, dando um fiel retrato de si próprio: «0 meu ofício, a minha arte, é a vida - mas é, em primeira mão, a vida dos outros».

A figura de Mário Sacramento merece bem a atenção e o estudo das novas gerações, pois nele se inscrevem e reconhecem todos os impulsos e contradições de décadas da nossa história colectiva, e porque os viveu intensa e apaixonadamente, de cabeça erguida, com inteireza moral, firmeza de princípios, coragem cívica, ousadia em cada passo na luta pela liberdade, a que associava um elevado espírito de tolerância e compreensão pelas diferenças, capacidade de diálogo com aliados ou adversários políticos - de que apenas excluía os fascistas.

Ao debater presencismo e neo-realismo, materialismo e idealismo, estética e ideologia, existencialismo e estruturalismo, procurava a dialéctica como método, a praxis como critério de verdade, mas, ao referir-se aos grandes movimentos sociais e literários, serenamente declarou: «preferi vivê-los a escrevê-los».

Contrariamente ao que escreveu um companheiro de geração, Mário Sacramento não sacrificou o ser ao dever, ou, por antítese, o dever ao ser. Porque ele foi na vida, no trabalho, no estudo, na luta, uma síntese, torturada, embora, das contradições em que sucumbiram tantos intelectuais de formação marxista, o que o engrandece, distingue e projecta no tempo.

A sua intensa actividade de ensaísta, criador e crítico literário, animador cultural, lutador incansável contra a ditadura, era inseparável da sua condição de comunista.

Por isso merece reparo que, num estudo recente de âmbito universitário sobre a sua vida e obra, se tenha omitido esta circunstância histórica, sem a qual não é possível entender, em toda a sua dimensão, a sua personalidade, o seu pensamento, e a natureza e alcance do seu empenhamento cívico.

Os que o conheceram sabem como sofria por cada corte da censura, e como paciente e imaginosamente escolhia, uma a uma, cada palavra, e as recobria das vestes mais diáfanas para que, iludindo o censor, chegasse intacta ao mais ignorado dos seus leitores; como cumpria a mais apagada, mas sempre necessária, tarefa clandestina do seu Partido; e como foi perseguido, ameaçado, materialmente lesado, e cinco vezes preso pela polícia política, a primeira vez com dezassete anos, outra durante seis meses, por ter subscrito uma carta a Salazar de solidariedade com os presos políticos do forte de Peniche, em greve da fome por melhores condições prisionais.

Os que o conheceram acompanharam os últimos momentos da sua colaboração na imprensa, na iniciativa que designou por "Diálogo com os Católicos", uma audaciosa aventura intelectual, merecedora de revisitação, que pode ser feita através da leitura do livro "Frátria". Nela, é-nos oferecido uma raro testemunho, duma desesperada, mas também determinada e lúcida busca de novas forças para combater e derrubar o fascismo, sem qualquer colagem acrítica ou abdicação de princípios e convicções, antes com o debate aberto e o exigente confronto de ideias, método eminentemente dialéctico.

A amargura e o desencanto que ressumam do último artigo, que sugestivamente intitulou de «SOS», são, ainda, um apelo, contido mas pungente, para que outros retomem e prossigam um caminho por desbravar.

O espírito conciliar e a mensagem da «Mater et Magistra», de João XXIII, não tinham impregnado a Igreja portuguesa, e vozes desassombradas como a do padre Felicidade Alves logo eram caladas e desautorizadas, pois a hierarquia mal se demarcava do regime.

O modo como Mário Sacramento se despede, na «Carta-Testamento» e nos últimos textos que assinou, mostram-nos como o fascismo era, na sua essência, violento e opressivo. Combatê-lo era, para as consciências livres, uma outra forma de respirar.

 

Estávamos em 1969, momento de uma aparente viragem estratégica no percurso da ditadura.

Marcelo Caetano, ao suceder a Salazar, tinha anunciado uma «evolução na continuidade», um composto híbrido, suficientemente ambíguo para alimentar expectativas, e, de caminho, paralisar lutas, aplacar revoltas e sustentar ilusões.

Era o tempo do «Zip-Zip», um programa televisivo que logo concitou as atenções, pois tinha outra agilidade e desenvoltura na linguagem e no tratamento dos temas, mas que cessou ao fim de alguns meses. Era o tempo das canções de José Carlos Ary dos Santos, como a «Desfolhada», na voz de Simone de Oliveira, ou «A Tourada», na voz de Fernando Tordo, que trouxeram até ao grande público a poesia, pela censura julgada irreverente e subversiva, e que os poderes instalados tentaram desvalorizar, pela dificuldade de as proibir, pois já tinham ganho o coração do povo.

A oposição democrática mais organizada e responsável, em que se destacava o PCP, logo classificou o discurso de Caetano como «demagogia liberalizante». De facto, o novo rosto da ditadura prometia, mas sem se comprometer, mudava os nomes às coisas sem mudar as coisas. Pide - DGS; Censura - Exame Prévio...

Tinha que ser testado, e foi, - com o incremento das lutas sociais, com novos passos do sindicalismo (a formação da Intersindical estava iminente), com a crise estudantil polarizada em Coimbra, com a resistência anti-colonial, com iniciativas como o 2.º Congresso Republicano, de que Mário Sacramento foi, ainda, o principal impulsionador .

A resposta foi implacável - no aumento do número de prisões, na brutalidade dos algozes, na violência repressiva, nas proibições da censura, na intensificação da guerra e dos seus crimes.

Tal não obstou a que, durante um dilatado período, alguns sectores da oposição tivessem apostado fortemente numa, ainda que tímida e mitigada, abertura do Regime, e tenham conversado discretamente com Caetano e seus mandatários sobre os seus propósitos e limites.

Mas não era possível ao Regime fundado por Salazar, com a sua natureza de classe, rigidez autoritária, organização do poder, fundamentos ideológicos, auto-regenerar-se.

Cedo ficou claro que o Regime não tinha mudado a sua natureza, os seus desígnios e os seus métodos. Não havia compromisso possível, antes se ampliava a consciência de que a conquista da democracia implicava uma ruptura de Estado, e que a paz e a liberdade eram inseparáveis de profundas transformações económicas e sociais.

Na sessão comemorativa do 31 de Janeiro, realizada no Teatro Aveirense em 1969, último comício em que participou, dizia Mário Sacramento: "Onde os privilégios económicos subsistem, os direitos políticos não se enraízam e podem ser coarctados sem dificuldade".

Foi um tempo áspero, violento, de um enfrentamento sem concessões nem ilusões.

Também no plano internacional se desenrolavam intermináveis e cruentos  conflitos militares, no Vietname, no Médio Oriente, onde o imperialismo tentava impor a ferro e fogo o seu domínio, e a Guerra-fria intensificava-se na Europa e em todos os continentes.

Mário Sacramento tudo procurava acompanhar, apaixonadamente, numa época em que a informação era bem mais difícil do que hoje. Vibrava com as perdas do imperialismo, sofria com erros e divisões no campo oposto.

Desses dias ficaram versos doloridos, mas que são marca indelével de um compromisso.

 "Foram cem os erros (já) do socialismo!?

Fossem cem mil - e socialistas seríamos!"

 

Foi, então, num tempo assim, de duros combates, opresso, plúmbeo, tão perto e tão longe da alvorada de Abril, que Mário viveu, tudo dando de si, com a sua palavra, a sua voz, a sua coragem, a sua inteligência, a sua generosidade, o seu dom de saber ouvir e convencer.

Talvez este breve apontamento ajude a conhecer melhor o homem e a obra, o intelectual e o cidadão. Mas não conseguem exprimir inteiramente a comoção, o reconhecimento de tanta gente anónima que acompanhou o seu corpo numa tarde de Março, em Aveiro, num longo rio de águas silenciosas.   

Disse Mário Sacramento: «a História não é um espectáculo a que assistimos, mas um real (condicionado, embora) que criamos».

Diríamos nós, de outra forma, que a História é feita pelos que não se resignam com a História...

Por isso, ecoa ainda hoje o apelo final, tão marcante, da sua «Carta-testamento», - «Façam o mundo melhor, ouviram?...» - apelo que a todos convoca e responsabiliza.

Jorge Sarabando

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Biografia de Mário Sacramento

1920 - Nasce a 7 de Julho, em Ílhavo (Largo do Oitão).

1931 - Com a classificação de "Distinto", faz o exame de instrução primária e matricula-se no Liceu de José Estevão - Aveiro.

1935 - Dirige, de 18 de Março a 11 de Junho, a "Voz Académica", jornal dos alunos do Liceu.

Tem 15 anos e, num cruzeiro de férias a Moçambique, profere no navio, onde o pai era comissário de bordo, uma palestra.

1937 - Volta a dirigir "A Voz Académica" (Janeiro de 1937 a Janeiro de 1938). O Conselho Pedagógico e Disciplinar do Liceu de Aveiro confere-lhe o premio "Sociedade dos Antigos Alunos", constituído por certa importância em dinheiro que, espontâneamente, oferece a um condiscípulo para pagamento de propinas. Entretanto, o mesmo Conselho comunica ao respectivo encarregado de educação que "mais uma vez se confirmam os créditos deste aluno, aliás brilhantemente revelado na redacção do jornal dos alunos deste Liceu -'A Voz Académica', do qual foi a verdadeira alma no ano escolar que findou em Julho último".  Pouco depois, o Jornal seria suspenso pelos poderes fascistas.

1938 - Aluno do 7º ano, no dia 10 de Junho sofre a primeira prisão.

Anteriormente, a 7 de Abril, na qualidade de presidente entregara a Homem Cristo uma mensagem subscrita por cerca de três centenas de alunos do Liceu e usa da palavra no decurso da homenagem ao notável jornalista aveirense.

1939 - Matricula-se em Medicina na Universidade de Coimbra, que, por não lhe agradar, frequentaria apenas um ano e onde tira os preparatórios, cursando seguidamente no Porto e, depois, durante dois anos, a de Lisboa, a fim de nesta ter Pulido Valente como mestre.

É durante o curso universitário que adere ao Partido Comunista Português.

1944 - Consorcia-se em 27 de Dezembro com a Dr.ª Cecília Marques da Maia Sacramento, sua antiga colega no Liceu e redactora da "A Voz Académica".

1945 - Ganha o "Prémio Oliveira Martins" nos Jogos Florais da Queima das Fitas de Coimbra, sendo então já aluno da Universidade de Lisboa. Faz parte da Comissão Central do MUD Juvenil.

1946 - Nasce, em 7 de Julho, o seu filho Rui. No exame da cadeira de História da Medicina apresenta o trabalho "A sugestão através da História da Medicina - Trabalho apresentado ao exame da cadeira de História da Medicina". Completa o curso médico, em Lisboa, e inicia o cumprimento do serviço militar. Fixa-se na terra natal, onde passa a exercer clínica.

1948 - Nasce, a 23 de Junho, sua filha Clara.

1953 - Sofre a segunda prisão, de um ano e meio, e escreve em Caxias o volume "Fernando Pessoa - poeta da Hora Absurda".

1955 - É preso pela terceira vez. A certa altura, mercê de firmes protestos, o encarceramento é interrompido, dado a esposa, por virtude das buscas e da detenção que sofreu, se encontrar em perigo de vida. Como consequência, nasce morto, com oito meses, o seu terceiro e último filho.

1957 - Transfere residência para Aveiro, onde abre consultório.

Promove o I Congresso Republicano, do qual seria secretário-geral.

1960 - Frequenta em Paris, como bolseiro do governo francês, o Hospital de St. Antoine, a fim de se especializar em gastroenterologia.

1962 - Mais uma prisão, a quarta, em Caxias. Inicia a segunda colectânea dos "Ensaios de Domingo", postumamente publicada (1974).

1965 - Com outros intelectuais, e em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, participa, em Itália, no Congresso dos Escritores Europeus.

1967 - Na Pousada de S. Jerónimo, Caramulo, redige, em 7 de Abril, o seu testamento político.

1968 - Faz, em Setembro, uma curta viagem de recreio ao Funchal, contactando com jovens escritores madeirenses.

1969 - Última alocução, no Teatro Aveirense, quando das comemorações do 31 de Janeiro. Preside, em Fevereiro, ao VI Encontro da Imprensa Cultural, realizado em Guimarães, e faz parte do júri para a atribuição do "Prémio Almeida Garrett", no Porto. Publica o seu derradeiro artigo, a que dá o título "Último". Fomenta e impulsiona os trabalhos para a realização do II Congresso Republicano. Morre, a 27 de Março, vitimado por um derrame cerebral. No dia seguinte, é sepultado em Aveiro, e, por sua expressa vontade, em campa rasa.

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UM ENCONTRO INFINITO
(discurso de António Pedro Pita, Director Regional da Cultura do Centro, proferido a 8 de Novembro de 2008, numa homenagem, realizada no âmbito do I Encontro Nacional da Toponímia, em Coimbra)

foto_alberto_vilacaA toponímia é um trabalho da memória. A todos os seus outros objectivos - de feição pedagógica, uns; outros, de organização do espaço urbano; sem esquecer, a facilitação da vida quotidiana dos cidadãos - sobreleva o de "conservar a memória de pessoas, acontecimentos e valores" [1] . Neste sentido, a toponímia parece trabalhar contra o tempo: todas as pessoas, todos os acontecimentos e todos os valores que o tempo parece devorar, condenando-os ao anonimato ou ao esquecimento, encontram na auto-consciência toponímica um lugar de resgate, fundado num pacto com a posteridade porque a toponímia fala no presente a partir do futuro.

Alberto Vilaça pertenceu à Comissão de Toponímia de Coimbra nos anos de 1983 a 1989 e 2002 a 2005 [2] . O Vereador Mário Nunes esclareceu que "foi a pessoa que mais anos pertenceu à Comissão" [3] . E, como é sabido e está documentado, nela foi não só particularmente activo - o que se conclui do grande número de propostas de que tomou a iniciativa - mas, sobretudo, um atento reorganizador da lógica toponímica.

Permitam-me que sublinhe um aspecto: intervir na toponímia com criatividade e justeza resulta de uma leitura pertinente do passado, de uma avaliação das heranças e da identificação do ponto exacto em que, no presente, o passado e o futuro se encontram.

Será excessivo encontrar, nesta deontologia da intervenção toponímica, as preocupações, os valores e os objectivos que Alberto Vilaça requereu como seus princípios de vida?

Muitos de presentes o conheceram melhor do que. Foram seus colegas, seus companheiros e seus camaradas. Mas se eu não quis ver nestas razões a boa razão para recusar o tão honroso convite para intervir nesta circunstância foi porque assim me é permitido dizer, embora infelizmente já demasiado tarde, meia dúzia de palavras necessárias.

Na última década de uma vida intensa, nascido que foi no ano chave de 1929, Alberto Vilaça consagra cada vez mais do seu tempo à investigação historiográfica. Dir-se-á que por óbvios motivos: o abrandamento de uma longa e prestigiada carreira de advocacia libertou-o para o culto dessa vocação, igualmente antiga, mas sacrificada pela exigência da outra.

Os motivos óbvios são, por norma, pouco recusáveis. Mas deixem-me relativizar o óbvio e imaginar e lançar uma hipótese. Quando o tempo passa e o passado cresce; quando, além de alongar-se, esse passado se deixa apreender como a condição cada vez mais forte do presente e do futuro; quando a vida e a experiência, progressivamente, se deixam compreender cada vez menos na sua auto-suficiência imediata porque cada vez mais se apresentam como circunstâncias históricas - a investigação historiográfica, além de um objectivo de conhecimento, cumpre um desígnio de orientação.

O gesto de mergulhar na historicidade dos homens, das coisas e dos acontecimentos pode, por isso, constituir uma via de acesso, uma chave que permite situar melhor os trabalhos e os dias de Alberto Vilaça.

De este ponto de vista - e por mais importantes que sejam, e de facto foram - a prática forense e a militância política, com a duríssima experiência de seis prisões e quatro anos e meio de cárcere, poderão ser consideradas, uma enquanto trabalho prático de instituição da justiça e outra como a transformação do presente num futuro que o optimismo marxista só poderia considerar melhor, dois elementos do puzzle existencial a que a investigação historiográfica concede horizonte, sentido e consistência.

Porque a sua investigação historiográfica não é uma investigação historiográfica qualquer. Se não erro muito, é estruturada por três coordenadas fundamentais.

Uma, refere-se à história cultural e política do comunismo em Portugal, cuja peça nuclear é Para a História remota do PCP em Coimbra (1997), obra a vários títulos notável, mas que deve ser  aproximada de outros trabalhos de menor dimensão mas não de menor significado, como, entre outros, A Comuna de Paris e os seus reflexos em Coimbra (1992), José Falcão, a Cartilha do Povo e as suas várias edições (1993, O Jornal Republicano Clandestino A Verdade (2002), Bento Gonçalves - Inéditos e testemunhos (2003) e A Comuna de Paris e a 1ª Internacional revisitadas em Portugal (2005). Neste âmbito, trata-se de mostrar a vinculação nacional da emergência das ideias marxistas, do bolchevismo e do comunismo, negando a noção simplista de que estamos perante um processo de simples importação e, portanto, de instauração artificial e fortalecendo a hipótese de que há uma história das ideias político-sociais em Portugal que liga, em épocas diferentes e graus diferentes de maturação, modos diversos de formar uma consciência revolucionária.

Outra coordenada fundamental é a que se prende com a tradição e a estrutura da atitude anti-fascista, de que são prova os estudos, de diferentes dimensão e ambição, como O MUD Juvenil em Coimbra - Histórias e Estórias (1998), Bento de Jesus Caraça - Militante Integral do Ser Humano (2000), Resistências Culturais e Políticas nos Primórdios do Salazarismo (2003) ou À Mesa da Brasileira - Cultura, Política e Bom Humor (2005).

Finalmente, é indispensável lembrar e sublinhar que a maior parte deste trabalho se refere insistentemente a Coimbra, num registo que oscila entre a melhor história local e o contributo local para uma história das ideias sociais e políticas. De este ponto de vista, Tempos de Munda e de Mondego, obra publicada em 2007, é exemplar: uma grande variedade de géneros (estudos, ensaios, memórias, cartas, documentos) refere-se exclusivamente a Coimbra, os tempos da cidade, a cidade no tempo, os elementos que tecem o real e o mito da realidade.

Não menos importante, todavia, do que o trabalho do historiador é a atitude do historiador: Alberto Vilaça foi um pesquisador incansável dos elementos que permitissem construir a máxima verosimilhança na reconstrução do passado; mas foi também um investigador generoso e fraterno, que facultava documentos, emprestava livros, prestava informações, discutia hipóteses e discordava com elegância.

É por isso que o descerramento desta lápide no âmbito do Programa do 1º Encontro Nacional de Toponímia é a oportunidade adequada para lembrar: se o nome de Alberto Vilaça fica de ora em diante justamente recordado na sua casa da cidade que amou, o nome do lugar onde Alberto Vilaça é exemplo e estímulo e discordância e controvérsia, como premissas dialécticas do desenvolvimento das ideias e das práticas nem por imaterial é menos presente. Dele nem sequer podemos falar: porque como as experiências fundas, corre no sangue, é o que nos ajuda a ver, a pensar e a sentir.

E quando, sempre tarde, sempre já demasiado tarde, nos propomos revisitar esse lugar que tem rosto e tem voz vamos acompanhados pelo sentimento de um encontro infinito.

ANTÓNIO PEDRO PITA


 


[1] Alberto Vilaça, Tempos de Munda e de Mondego, Calendário de Letras, 2007, p. 153.

[2] Idem, ibidem, p. 153.

[3] Declarações prestados a O Despertar, 7. Novembro. 2008.

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